1. Quanto custam os nossos pequenos luxos?

1Uma investigação da Amnistia Internacional, em colaboração com a organização não-governamental africana African Resources Watch, permitiu descobrir que o cobalto usado nas baterias de lítio de telemóveis, computadores e outros aparelhos vendidos por todo o mundo por marcas multinacionais como a Apple, a Microsoft ou a Vodafone, vem de minas na República Democrática do Congo, onde milhares de pessoas trabalham em condições desumanas (ver aqui).

Adultos e crianças, algumas com menos de sete anos de idade, trabalham em condições perigosas, recebendo o equivalente a 90 cêntimos por dia, sujeitos a violências e intimidações. Algumas destas pessoas foram entrevistadas e relataram horários de trabalho de 12 horas por dia, sem fatos ou equipamentos de protecção. As crianças carregam cargas pesadas de minério em bruto no meio de um calor intenso, sem luvas nem máscaras. Algumas dizem ter sido espancadas por guardas das empresas mineiras e referem ter sido obrigadas a pagar “multas” quando ocorrem inspecções nas minas ilegais onde trabalham.

Sabe-se que mais de metade do fornecimento mundial de cobalto vem da República Democrática do Congo, sendo 20% deste oriundo de minas artesanais na região setentrional do país. Em 2012, a UNICEF estimava em cerca de 40 mil o número de crianças a trabalhar nas minas do sul do país, muitas delas de exploração de cobalto.

Talvez faça sentido ter isto presente, da próxima vez que formos escolher e comprar os nossos imprescindíveis e cada vez mais sofisticados equipamentos tecnológicos.

2. “Uma Economia para 1%”: a história de um mundo cada vez mais desigual

2Há um ano atrás, também por altura de mais um encontro do Fórum Económico Mundial em Davos, tínhamos dado a conhecer os números avassaladores sobre as desigualdades a nível mundial, revelados pela organização não-governamental Oxfam. Volvido um ano, e após mais um encontro em Davos, ficamos a saber pela mesma ONG que estes números se agravaram: 1% da população mundial possui mais riqueza do que os restantes 99%; e as 62 pessoas mais ricas já detêm tanta riqueza como a metade mais pobre da população mundial (3,5 milhões de pessoas). (ver relatório aqui)

Nos últimos cinco anos, o aumento da riqueza dos que estão no topo teve correspondência com o nível de empobrecimento dos que estão na metade inferior da escala. A riqueza desses 62 multimilionários aumentou 44% desde 2010, enquanto relativamente aos 3,5 mil milhões de mais pobres desceu 41%.

Parece que para já, e como refere Winnie Byanyima, directora da Oxfam, a preocupação manifestada pelos líderes mundiais sobre a escalada das desigualdades ainda não se traduziu em medidas concretas. Vivemos pois num mundo cada vez mais desigual e onde esta tendência se tem vindo a agravar de ano para ano.

3. “As redes sociais são uma armadilha”

3Em entrevista recente ao jornal El País (pode ser encontrada aqui), Zygmunt Bauman, conhecido sociólogo que completou recentemente 90 anos de vida, falou, entre outras coisas, da sua perspetiva sobre as cada vez mais presentes redes sociais. Para Bauman a identidade foi transformada de algo preestabelecido numa tarefa, é a cada um que toca criar a sua própria identidade, dentro de uma comunidade que, muitas vezes, está ausente. E é aí que surge o papel das redes sociais.

A diferença entre comunidade e rede é que a pessoa pertence à comunidade, enquanto que a no caso da rede, é ela que pertence, de certo modo, à pessoa. Pois na rede de cada um é possível adicionar e eliminar amigos, no fundo controlar as pessoas com quem a pessoa se relaciona. Isso faz com que os indivíduos se sintam aparentemente integrado num grupo, já que a solidão acaba por ser a grande ameaça nesses tempos individualistas.

Só que é tão fácil nas redes sociais adicionar e eliminar amigos, que as habilidades sociais deixam de ser necessárias. Elas são desenvolvidas na rua, ou no trabalho, quando se encontram pessoas com quem é preciso ter uma interação razoável. É aí que a pessoa se enfrenta as dificuldades de comunicação e relação, e aprende a envolver-se em diálogo.

Foi curioso, neste sentido, o sinal dado pelo papa Francisco, que logo após ser eleito optou por dar a sua primeira entrevista a Eugenio Scalfari, um jornalista italiano proclamadamente ateu. Foi o sinal de que o diálogo real não é só falar com pessoas que pensam igual a nós. Esse é o perigo das redes sociais, que não ensinam a dialogar pois é muito fácil evitar a controvérsia. Muita gente usa assim as redes não para crescer nas relações e assim ampliar os seus horizontes, mas ao contrário, para se fechar nas suas “zonas de conforto”, sendo que o único som que ouvem é o eco de suas próprias vozes, e a única coisa que vêem são os reflexos dos seus próprios rostos.

Em síntese, as redes são muito úteis e oferecem muitas potencialidades, mas são uma armadilha, sendo por isso necessário estar atentos aos seus perigos.

Seleção e redação de textos por Paula Ferreira (diretora)