Abertura de mente e de coração

Why complicate life 1Caio na conta, ao olhar esta edição da Newsletter do Centro, que todos os textos falam de abertura, em modo de internacionalidade. Da sobremesa turca ao almoço quirguizi, da formação em interculturalidade às notícias sobre o cobalto do Congo, das redes sociais à distribuição da riqueza no mundo, todos são temas que nos remetem a algo maior, à abertura de mente e coração que só o contacto com o “outro”, o diferente e o “mundo lá fora” são capazes de proporcionar.

É curioso perceber que esta abertura, que tanto nos preenche, acaba por ser tudo menos automática. Todos temos preconceitos (pré-conceitos, i.e., “conceitos prévios”, em relação a pessoas, raças, classes sociais, …) que nos impedem de “ver” verdadeiramente a realidade como é. Todos projetamos sobre os outros os nossos medos e interpretações dos seus gestos e atitudes, num juízo que tantas vezes se torna indefensável: “tu dizes-me isto, mas a tua intenção é aquilo”. E o outro, diga o que diga, fica “prisioneiro” dessa interpretação. Talvez por isso, pelo conhecimento profundo da natureza humana, Santo Inácio tenha definido nos Exercícios Espirituais, por um lado, a regra básica do “pressupor sempre a boa intenção do próximo” (e mesmo que não a tenha, haverá sempre algo de positivo a tirar do que diz). E proposto, por outro, a releitura sistemática das nossas visões e leituras da realidade (e por isso o “examinar da consciência” começa sempre pelo passo de “pedir luz”).

Esta tem sido também a experiência aqui no Centro. Aparece quando tentamos perceber gestos e atitudes de vida dos nossos utentes estrangeiros que podem ter algo/muito de cultural (às vezes é fácil esquecê-lo). Surge também nas reuniões de equipa, quando aparecem naturais diferenças, e quando ainda assim há o esforço de entender o outro, e de colocar em cima da mesa, com transparência, aquilo que verdadeiramente cada um pensa. Surge com os voluntários, quando com empenho se entregam a algo definido pelo conjunto e para o bem do “todo”, mesmo se eventualmente tivessem opinião ou gosto diverso. Refere o Clayder, no video do “utente do mês”, que a palavra que escolhe para definir o Centro é o “compartir”, a partilha. E não há partilha, nem comunhão verdadeira, sem abertura. Obrigado ao Centro por no-la lembrar, e a ela forçar, constantemente. É muitas vezes doloroso, sim, mas também, afinal, libertador e feliz!

 P. Filipe sj