Chega a primavera e com ela a alegria dos recomeços, dos reencontros, dos desejos dos abraços evitados. Mas é-nos pedido contenção e cuidado, a atenção com o mais frágil, que não sabemos quem é. Uma primavera que parece ser mais um prolongamento do inverno. Mas a primavera vem devagar com sinais que a anunciam, como os esperamos? A Páscoa de Jesus também se deu com sinais pequenos e quase invisíveis.

Não é por acaso que a primavera e a Páscoa acontecem juntas. Ambas simbolizam o triunfo da vida sobre a morte. Sim, o triunfo da vida sobre a morte. Para os crentes e não crentes. É preciso gritar bem alto esta certeza da fé porque a experiência de que a vida é mais forte que a morte nem sempre é clara. Como se diz que diante de um familiar ou amigo em sofrimento ou acabado de morrer, que a vida é mais forte que a morte? Esta certeza que, para nós cristãos, nos dá a ressurreição não pode ser uma espécie de narcótico que altera a realidade e nos faz entrar em negação da dor e do sofrimento; também não é uma vacina que nos faz andar mais confiantes.

Se a primavera nos lembra os ciclos da natureza e que a uma época de aparente esterilidade e morte (inverno) se segue uma de renascer da vida. A Páscoa, pelo contrário, afiança-nos na certeza da saída deste ciclo de morte e renascimento. Relembra-nos, ou melhor, convida-nos a perceber qual o caminho para encontrar esta saída. Caminho que será sempre difícil de perceber. Pois, mais que que uma busca de resposta às nossas mais difíceis perguntas sobre o sofrimento, a dor e a morte, é um convite a desistir das perguntas e embarcar na procura do encontro com o outro. Um convite a aceitar e abraçar as minhas mortes no compromisso com a vida que devo ao outro. Sim, eu tenho obrigação de cuidar da vida do outro.

A graça e o dom da vida são descobertas nesta saída, por vezes dolorosa, de mim mesmo, na entrega da minha vida para que outros tenham vida. A morte e o sofrimento continuaram sempre como mistérios, sempre como perguntas por responder. Mas a minha vida ganha vida quando a entrego para que outros tenham vida. É isto que Deus, em Jesus, nos oferece. Assim, a pergunta “porquê eu” deixa de ser importante pois a questão “para quê eu” passa a ser a que orienta a minha vida. Esta é a passagem do inverno para a primavera, que não se repete ou que, repetindo-se, me desafia a deixar de entender a vida como um contínuo repetir de estações que se sucedem umas às outras. Este é o efeito da Ressurreição no meu modo de ser e viver. Só deixando que Deus me oriente nesta viragem poderei mudar o meu modo de estar.

José Eduardo Lima, s.j. | Presidente da Direção