Month: December 2014

Editorial

Natal

Implicação de Deus, implicação dos homens

Eis que chega às suas mãos, “lançado” em véspera de Natal, o segundo número da Newsletter do Centro São Cirilo. E talvez não haja coincidência mais feliz, pois o Natal recorda esta incrível e incondicional implicação de Deus com os homens, o desejo de entrar na realidade para a mudar por dentro, em particular na vida de aqueles para quem a vida é mais difícil (por isso o primeiro anúncio da “boa notícia” é para os pastores, gente simples e disponível). Como escrevia alguém estes dias, “com o Natal a história recomeça a partir dos últimos”.

E se nos ocorre pensar em “qual o presente que Jesus nos traz?”, a resposta é desconcertante: Deus não nos traz prendas volumosas, descansos fáceis e alegrias superficiais. O que nos traz é “missão”, vem dar-nos trabalho, desafia-nos a que com Ele nos impliquemos na construção do Reino, do mundo mais justo e mais fraterno sonhado por Ele. E esse “trabalho”, o “ser boa notícia” na vida dos demais, é curiosamente o que nos dá sentido à vida. Pois “a tua felicidade acontece quando te ocupas com a felicidade dos outros”!

Que 2015 seja ano em que esta lógica continua a acontecer e a crescer no Centro. Que o “amor” (palavra que “tem tudo lá dentro”, como diz o Sr. Yango na entrevista mais abaixo) continue a ser o que nos orienta os passos. E que nesta “implicação” com o que a realidade dos mais frágeis nos pede, possamos fazer a grata experiência da alegria do próprio Deus que serve. Um muito Feliz Natal para todos, seguimos unidos, na construção de um mundo melhor!

P. Filipe sj

Breves do Centro

1. Venda de Natal1526719_658332330954880_2489844790992579625_n

Decorreu nos dias 5, 6 e 7 de Dezembro a já tradicional Venda de Natal no Centro São Cirilo, tendo sido mais um importante momento de ajuda e de dinamismo na vida da casa. A Venda representou também a possibilidade de abrir as portas ao público e dar a conhecer a mais gente o Centro e a sua missão, os seus objetivos e algumas das atividades desenvolvidas, num ambiente informal e de muita proximidade.

Diversas bancas de venda de várias instituições e de particulares animaram o espaço, e o Centro organizou também uma banca de bebidas e doces, muito concorrida por todos os que nos visitaram. A oferta era diversificada e para todos os gostos, possibilitando a escolha e a compra de prendas originais para o Natal. Alguns momentos culturais e musicais foram dando animação à Venda ao logo dos vários dias. No dia de abertura foi apresentado o livro “Dançar à Chuva”, com várias histórias de vida, entre as quais a de um utente apoiado por nós em tempos recentes (apresentação do livro aqui). No sábado houve momentos musicais para todos os gostos, desde as “Danças do Mundo” e Mickael Jackson, a Lindy Hop e a música brasileira (cantada a cappella por um utente brasileiro). No domingo abrimos com contos de Natal para toda a família, tivemos música mexicana (cantada ao vivo por um utente mexicano) e encerrámos com a presença já habitual dos Meninos do Coro.

1779695_660891274032319_902552727030733409_nNo final, fica um grande agradecimento a todos os que passaram pela Venda, assim como a quem, mesmo não podendo estar, nos quis fazer chegar mensagens de amizade. Muitas fotos da Venda podem ser encontradas no nosso Facebook. Quanto a quem não veio, não sabe o que perdeu. Mas não há motivo para preocupações, pois para o ano há mais!!

2. Assembleia Geral de final de ano

Quase a chegar ao final de 2014, é tempo de definir rumos e estratégias para 2015. É isso que fazem todas as instituições nesta altura do ano, e o Centro não é exceção. Foi assim que na fria noite de 10 de Dezembro se reuniu a Assembleia de Curadores do Centro, de forma a debater o Orçamento e o Plano de Atividades para 2015. Houve dúvidas a ser colocadas e questões a ser respondidas, comentários pertinentes e sugestões apresentadas. O Centro tem diante de si ainda desafios muito exigentes, a procura da sustentabilidade e as mudanças estão ainda a acontecer (e provavelmente estarão sempre, pois a própria realidade que procuramos servir vai mudando), mas há também muito potencial a ser ainda explorado e muita esperança no futuro! Para quem tenha curiosidade pelos desafios e rumos que nos esperam em 2015, o Plano de Atividades (elaborado e apresentado já pela nova diretora Paula Ferreira) pode ser encontrado aqui.

Esta Assembleia trouxe também novos Corpos Sociais ao Centro, numa lógica de mudança que também é normal em qualquer instituição. É tempo de agradecer a grande dedicação e presença daqueles que os deixaram (em particular, sem desprimor para nenhum dos outros, da dedicadíssima anterior tesoureira Teresa Cardoso). E damos as boas vindas à Sara Gonçalves (nova tesoureira), ao Alfredo Lima (para completar o Conselho Fiscal), ao Américo Mendes, Ana Leite, Joana Morais e Castro, Maria do Carmo Ribeiro e Rui Assis (novos curadores). São uma bênção estas novas presenças, pelo olhar experiente e empenhado que trazem ao projeto (com ligações da economia social à imigração, do voluntariado à realidade social da cidade). Sejam todos muito bem vindos! E com eles e os Corpos Sociais da primeira hora, com o generoso corpo de voluntários e o empenho da equipa, os vários amigos e apoios de quem se vai identificando com a nossa missão, como não havíamos ter confiança neste 2015 que começa?!

3. Alunos do Colégio das Escravas no Centro

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No dia 15 de Dezembro o Centro foi literalmente “invadido” por 37 adolescentes animados e ruidosos, todos alunos do 8º ano do Colégio das Escravas do Sagrado Coração aqui no Porto. Já no ano passado cá tinham estado, e gostaram tanto que pediram aos professores para regressar.

Se no ano passado tinham ficado a conhecer as histórias pessoais (e difíceis!) de alguns utentes do Centro, este ano preparámos-lhes um programa diferente. Tudo começou com uma hora de Tai-chi, onde o “mestre” Diogo Santana pôs mais novos e mais velhos (alunos e utentes misturados!) à procura da beleza e do equilíbrio que esta arte oriental proporciona. Seguiu-se um almoço partilhado, com iguarias oferecidas pelas mães dos alunos, e a par com várias atividades de animação (nomeadamente um “concurso da fotografia mais original”!). O dia terminou com uma distribuição de presentes, já que cada adolescente tinha sido convidado a trazer uma prenda para um utente concreto do Centro, a partir da descrição dos seus gostos e origem. Algumas fotos destes vários momentos podem ser encontradas aqui.

Este foi mais um dia bonito na história do Centro, em que no final mal se percebia quem era quem e as misturas imperavam: enquanto alguns ouviam deliciados as mil e uma histórias do Sr. Abílio, outros aprendiam música brasileira com o Sr. Braz. E houve ainda a coincidência curiosa de ser o dia de aniversário da Despoina, utente grega, e do João, um dos alunos presentes, e aos dois cantámos os parabéns. E não é esta afinal a missão do Centro, a construção de um mundo onde as diferenças se esbatem e a alegria se partilha? Obrigado pela visita, e apareçam mais vezes!

História do mês

Num pequeno vídeo somos convidados a percorrer a história do Sr. Yango, um dos utentes do Centro São Cirilo, que recentemente se autonomizou ao ter conseguido um emprego estável.

Voluntariado do mês

As aulas de Português são das atividades mais concorridas no Centro São Cirilo. Neste vídeo acompanhamos as três turmas e o exemplo da voluntária Maria do Carmo.

Atenção às margens

1. Programa “Mentores para Imigrantes”

O Programa “Mentores para Imigrantes” mentoresé uma iniciativa de origem recente promovida pelo ACM – Alto Comissariado para as Migrações e aplicado em todo o país por um conjunto de parceiros locais. Este programa pretende promover, através do voluntariado, experiências de troca, de entreajuda e de apoio entre cidadãos portugueses e imigrantes, permitindo o conhecimento mútuo e o esbater das diferenças na resolução das mesmas dificuldades, preocupações e desafios do dia-a-dia.

Também o Centro decidiu entrar neste Programa, e tivemos a 13 e 14 de Novembro uma sessão de formação com a Dra. Bárbara Duque e a presença de todas as instituições parceiras da zona Norte. Estiveram cerca de 30 pessoas, vindas desde Vila Real à Covilhã. Foram dois dias cheios, de muita aprendizagem e partilha de instrumentos e metodologias de intervenção desenvolvidas por cada um dos parceiros, sempre com o objetivo de ajudar e ser mais úteis para os nossos utentes.

Mais informação sobre este programa pode ser encontrada aqui. E caso tenha curiosidade e alguma disponibilidade para entrar neste bonito projeto e tornar-se mentor de alguém que precisa da ajuda de quem está já habituado à realidade portuguesa, então não deixe de nos contactar!

2. Congresso sobre “O impacto das Representações Sociais na Luta Contra a Pobreza em Portugal”

seminário EAPNA EAPN – Rede Europeia Anti-Pobreza, organizou no dia 11 de Dezembro no Porto a apresentação do estudo intitulado “Bem-me-Quer; Mal-me-Quer – O impacto das Representações Sociais na Luta Contra a Pobreza em Portugal”. O objetivo deste estudo foi a compreensão da forma como as “representações sociais”, que os técnicos e dirigentes de instituições sociais possuem face à pobreza e exclusão social, modelam quer a sua atuação junto dos utentes, quer a definição e a execução das políticas públicas de âmbito social.

Através de exemplos muito concretos e atuais, os participantes foram sendo levados a aperceber-se da existência de muitas “representações mentais” erradas ou redutoras. Acaba por ser comum, por exemplo, pensar que “no fundo, se esta pessoa se esforçasse o suficiente, seria capaz de sair da pobreza”, o que não tem em conta que muitas vezes não é verdade e as causas são também sociais. Ou que “quem se veste bem não pode ser realmente pobre”, o que ignora que as pessoas continuam a usar o que já usavam antes de cair na crise. Ao longo do dia muitas destas representações foram sendo desconstruídos, e mais haverá quando em Fevereiro de 2015 for publicado o estudo completo, que será de acesso gratuito (a página da EAPN pode ser encontrada aqui)

3. Sem-abrigo do Porto pretendem processar Estado Português

Surgiu há dias num jornal nacional a notícia de que um grupo de sem abrigo do Porto, ligados ao movimento “Uma Vida como a Arte”, decidiram processar o Estado Português por violação dos direitos humanos (ver aqui). Ultrapassada a primeira impressão de desproporção e excesso, a leitura do artigo revela os motivos por detrás de tal ação, o alerta para que nem o Estado nem a população em geral se esqueça da situação muitas vezes desesperada destes homens e mulheres que vivem na rua.

Vários são os exemplos reais recolhidos pela notícia, desde pessoas que se sabem “demasiado velhas para encontrar trabalho e demasiado novas para pedir a reforma”, aos cortes e mudanças de regras sucessivas das várias prestações sociais (que faz com que famílias com tudo em ordem estejam às vezes meses à espera do seu pagamento), e ainda ao paradoxo de isentar das taxas moderadas quem não tem rendimentos, mas não do pagamento dos medicamentos (assim como óculos, próteses, etc.), o que na pratica torna impossível a sua aquisição.

Tem sido cada vez mais frequente o surgir de reportagens na comunicação social sobre a pobreza em Portugal, com rostos e histórias concretas. E com elas o desafio, feito a cada um, de conhecer melhor esta realidade que afeta a muitos, e de encontrar formas concretas de atuar para a minorar e combater.

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