Mês: Janeiro 2015

Editorial

A alegria do caminho partilhado

Recordo ter ouvido, numa formação sobre voluntariado há já vários anos, que não há relação de ajuda que não comece sempre por uma certa atitude de alguma “superioridade”. Por mais que nos alertem contra isso, por mais que leiamos textos ou escutemos testemunhos, começamos quase sempre o empenho social com uma certa perceção de que, no fundo, sabemos e fazemos melhor do que aqueles a quem queremos ajudar. Lemos as suas necessidades, pensamos nas soluções para os seus problemas, e esforçamo-nos por as concretizar muitas vezes sem eles. Com a melhor das boas vontades, mas sem cair na conta de que no fundo estamos a secundarizar quem deveria ser o primeiro agente do seu próprio crescimento.

É esta uma das questões a que temos tentado dar crescente atenção no Centro, e a que a palavra “capacitação” faz referência. Começámos no início do ano uma nova atividade chamada “Hora do Conto”, em que são os utentes a escolher a história a debater, e a liderar, acompanhados, a conversa. As formações querem ser cada vez mais “dadoras de ferramentas”, e os “Passos positivos” (referida mais abaixo) foi uma bonita “injeção de confiança” a quem a frequentou. Temos tido a alegria de receber quase todas as semanas novos voluntários, e a reunião que tivemos sobre o Plano de Atividades para 2015 (também objeto de notícia) foi outro bom momento de envolvimento de todos. E o entusiasmo e a comunhão que se vão gerando parecem indicar que o caminho é mesmo por aqui.

Sobre isto, tem graça pensar no próprio Jesus, e como também ele não quis deixar de envolver outros na sua missão. Reuniu um grupo de aprendizes a quem foi pacientemente formando e com quem partilhava vivências e dúvidas. As diversas curas que fez tinham sempre uma “dimensão física”, sem dúvida, mas o mais importante era sempre a “dimensão espiritual”, dando a quem curava confiança e desejo de voltar, com ânimo, ao caminho. Talvez seja mais rápido, e mais tentador, sermos nós a fazer sozinhos e “para os outros”. Mas é o caminho feito em conjunto, “com os outros”, que mais perdura e mais alegria traz. Obrigado a todos os que de alguma forma (voluntários, doadores, amigos) colaboram com este projeto! E que para todos este seja mais um ano de crescimento na capacidade de percorrermos, lado a lado com quem mais precisa, o caminho da vida.

P. Filipe Martins sj

Breves do Centro

1. Formação “Passos Positivos” no Centro10385374_682470191874427_4064283328398237270_n

Na lógica de capacitação que temos vindo a implementar no Centro, os “projetos de vida” dos utentes incluem a participação num ciclo de formações transversais técnicas e humanas, a ter lugar numa tarde de 15 em 15 dias. No início de Janeiro foi a vez da formação “Passos positivos”, sobre a qual pedimos um pequeno testemunho a dois dos participantes.

Foi uma acção com um alto teor educativo, onde aplicámos as nossas competências na procura da felicidade.

Por meio de vários jogos e partilhando uns com os outros, mostraram-nos que somos Very Special Persons (pessoas muito especiais).

Aprendemos que embora a vida se nos apresente às vezes como um túnel sem saída, foi-nos demonstrado que há sempre uma luz do outro lado desse túnel.

João Duarte e Sara Nauroy

2. Primeira reunião de voluntários de 2015

No passado dia 21 de janeiro, novos e menos novos voluntários do Centro Comunitário São Cirilo reuniram-se, nas instalações do Centro, para a primeira reunião de voluntários do novo ano. Há medida que a hora marcada para o início dos trabalhos se aproximava, foram chegando os diferentes participantes e assim passámos à fase prévia da reunião: chá, docinhos e uma grande dose de calor humano!

A agenda de trabalhos era “cheia”, mas graças à boa gestão do tempo por parte da equipa que a dirigiu (a diretora Paula, a coordenadora de voluntários Maria do Carmo e o P. Filipe), todos os assuntos foram debatidos, no tempo adequado e com a participação ativa de todos os presentes. A apresentação do Plano de Atividades (PA) para 2015, disponibilizado atempadamente a todos os participantes, suscitou enorme interesse, e resultou num diálogo extremamente rico, com partilha de ideias, troca de experiências e a apresentação de diferentes propostas passíveis de serem tidas em conta, de forma a integrarem o referido PA. Foi interessante sentir que todos unidos caminhamos no mesmo sentido! Foram ainda tratados outros assuntos: ligação dos vários tipos de voluntariado ao organigrama do Centro, a avaliação de todas as instituições (incluindo o São Cirilo) que os jesuítas portugueses estão a promover, e o arranque do Projeto Mentores para Imigrantes.

Mas o melhor estava para chegar, uma verdadeira surpresa: o vídeo com que terminámos a reunião (disponível aqui), ao qual nenhum dos presentes ficou indiferente, que nos encheu o coração e nos fez acreditar ainda mais que vale a pena ser uma V.S.P – Very Special Person. Um bem-haja a todos e que juntos continuemos a percorrer o mesmo trilho!

Idalina Santos

3. Workshop do projecto ECOAR

A funcionar no Porto desde 2007, a PELE – Espaço de Contacto Cultural e Social investe na afirmação do teatro enquanto espaço privilegiado de diálogo e de “empoderamento”, colocando os indivíduos e as comunidades nos centros de criação. Assume a criação artística como uma alavanca para o desenvolvimento pessoal e comunitário, contribuindo para a coesão social e territorial.

E é neste contexto que surge o projeto ECOAR (ver aqui), que pretende potenciar a empregabilidade através da participação em projectos artísticos. Este projeto será implementado em 4 Estabelecimentos Prisionais da Região Norte ao longo de 2015, permitindo a participação de cerca de 160 jovens. Foi apresentado em “modelo workshop”, nos dias 23 e 24 de Janeiro, e nele estiveram presentes a técnica de emprego Maria José Lino e a psicóloga Rita Santos.

No Workshop foram inicialmente apresentados os princípios orientadores no trabalho de Arte e Comunidade, e alguns dos projetos que têm vindo a ser dinamizados com recurso a esta metodologia. E em seguida fomos explorando e vivenciando um curioso conjunto de instrumentos úteis para este trabalho. Jogos e citações poéticas, dinâmicas corporais e testemunhos, narrativas de sucessos e de experiências anteriores, com todos eles fomos construindo o workshop, de um modo descontraído e informal. Acabou por ser um dia divertido, desafiante, curioso. Será que um dia destes veremos alguma destas dinâmicas no nosso São Cirilo? Esperemos pelas cenas dos próximos capítulos…

 Maria José Lino

História do mês

Num pequeno vídeo somos convidados a percorrer a história do Sr. Firmino, um português que viveu alguns anos no Canadá.

Voluntariado do mês

O Banco de Roupa é das actividades menos visíveis do Centro São Cirilo, mas com um impacto enorme na vida de quem por cá passa. Neste vídeo acompanhamos um dos dois turnos a funcionar actualmente e o testemunho da voluntária Paula Osório.

Atenção às margens

1. Os ucranianos representam mais de um terço dos pedidos de asilo em Portugal em 2014

ucrani

Uma notícia recentemente publicada (ver aqui) dá conta dos números relativos aos pedidos de asilo em Portugal no ano de 2014. Ao contrário do que aconteceu em 2013, em que os candidatos ao estatuto de refugiados foram maioritariamente de nacionalidade síria, no último ano, dos 439 pedidos de protecção internacional apresentados em Portugal mais de um terço (154) foram de cidadãos ucranianos. O conflito que se vive naquele país explica esta realidade. Muitos dos que conseguiram autorização para residir em território português optaram por permanecer no nosso país, onde continua a existir uma forte presença da comunidade ucraniana, em vez de rumarem para outros países europeus, como tem acontecido com cidadãos de outras nacionalidades.

Os números de 2014 revelam ainda que os 439 pedidos de asilo apresentados no nosso país correspondem a 48 nacionalidades diferentes, sendo que a seguir à Ucrânia, surge o Paquistão com 26 pedidos e Marrocos com 25. Contabilizaram-se 16 pedidos de asilo por menores desacompanhados, e um aumento muito significativo dos candidatos ao estatuto de refugiados por questões de orientação sexual.

Como dado positivo, Teresa Tito Morais, presidente do Conselho Português para os Refugiados, estima que a taxa de admissibilidade de permanência no território português ultrapassa os 50% em 2014, valor bastante superior ao do ano anterior (33%). Esta responsável não deixa, contudo, de lembrar a situação de precariedade económica em que vivem muitos dos refugiados, apesar de se adaptarem facilmente à vida do país de acolhimento.

2. Um mundo cada vez mais desigual

desigual

O relatório da organização humanitária Oxfam, dado a conhecer há poucos dias (ver aqui), mostra que caminhamos para um mundo cada vez mais desigual, onde o fosso entre os ricos e os pobres está a aumentar. A Oxfam estima que em 2016, cerca de metade da riqueza mundial estará nas mãos de apenas 1% da população. Atualmente, as 80 pessoas mais ricas do mundo detêm a mesma riqueza que 50% da população mundial mais pobre.

A directora executiva da Oxfam, Winnie Byanyima, foi convidada para estar presente na conferência de Davos (de 21 a 24 de janeiro) que anualmente reúne líderes económicos, académicos e governamentais de todo o mundo, e aproveitou este encontro para sensibilizar os decisores políticos para a explosão da desigualdade e para apelar à tomada de medidas que contrariem esta situação. Para a representante da Oxfam, o aumento da desigualdade atrasa a luta contra a pobreza no mundo, numa altura em que uma em cada nove pessoas não tem o suficiente para comer e mais de mil milhões de pessoas ainda vivem com menos de 1 dólar (cerca de 0,90€) por dia. O vídeo com o interessante debate (em inglês) pode ser visto aqui.

3. Estudo nacional sobre as comunidades ciganas

ciganos

O ACM – Alto Comissariado para a Migrações apresentou, no dia 20 de janeiro, o “Estudo Nacional sobre as Comunidades Ciganas”, coordenado pelo Centro de Estudos das Migrações e das Relações Interculturais da Universidade Aberta (disponível aqui). Reconhecendo a escassez de informação sobre as comunidades ciganas que vivem no nosso país, esta investigação procurou fazer um levantamento do número de pessoas ciganas residentes em Portugal, conhecer a sua distribuição pelo território nacional e as suas condições de vida.

Entre as várias conclusões do estudo constata-se que os perfis destas populações continuam a assentar em trajectórias escolares curtas (principalmente no caso das raparigas), marcadas pelo absentismo, insucesso e abandono escolares. Persistem as situações de desocupação e desemprego, e entre os que exercem uma actividade económica, a venda ambulante é ainda o principal meio de sustento. Os casamentos ocorrem em idades muito precoces (entre os 13 e os 15 anos). É elevada a percentagem dos que beneficiam do RSI, e verifica-se uma tendência para reproduzir ciclos de pobreza e uma incapacidade para escapar a vivências de pobreza e exclusão.

Mas o estudo reconhece também que há mudanças sociais em curso e com impactos na vida das pessoas ciganas: um maior número de situações em que se denota interesse pela escola e pela obtenção da escolaridade obrigatória; a redução do absentismo e abandono escolar por via do RSI; uma maior frequência de creches e jardins-de-infância; a melhoria da relação das famílias com a escola; uma maior participação das mulheres em cursos de alfabetização e processos de RVCC – Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências; e, finalmente, o aparecimento de alguns sinais de mudança de atitudes e comportamentos nas questões de género.

O estudo não deixa de constatar que, apesar de estarem radicadas em Portugal há mais de cinco séculos, as comunidades ciganas foram e continuam a ser, em muitos contextos e circunstâncias, mal vistas, alvo de estereótipos, discriminação, racismo e desigualdade social, o que impede estes cidadãos de saírem da situação de vulnerabilidade, pobreza e exclusão em que se encontram.

Selecção e redacção por Paula Ferreira (Directora do Centro)

© 2019

Theme by Anders NorenUp ↑