Month: March 2015

Editorial

A caminho da cruz

Sai esta edição da Newsletter quando já estamos em plena Quaresma, o caminho de preparar o coração para a Páscoa. Sempre associamos à Páscoa a alegria e a festa. Quanto à Quaresma, vemo-la quase sempre como tempo “pesado” e difícil de passar. Quem de nós não preferiria encurtá-la o mais possível, e chegar rapidamente ao Domingo de Páscoa sem ter que passar pela Sexta-feira Santa?

Mas a vida não é assim, não é feita só de momentos fáceis e alegres. Pede-nos entrega e persistência, mesmo nos momentos difíceis. Um viúvo, por mais que os filhos se esforcem, continuará a ser um viúvo, e terá que aprender a viver com a solidão inerente. Alguém com dificuldades nos estudos terá que aprender a aceitar essa limitação com paz, sem que por isso se sinta inferiorizado em relação aos demais. Talvez esse seja um dos grandes desafios da vida, deixar de imaginar que a vida só vale a pena quando corre de forma fácil, e acreditar que o fácil e o difícil se podem viver “bem”, mantendo a entrega e sem deixar que o desânimo e a adversidade tenham a última palavra.

Aqui pelo Centro passa muita gente com existências duras, a quem a vida parece ter destinado uma dose maior de dificuldades. Palavras como as anteriores podem parecer fazer sentido, mas são muitas vezes difíceis de pôr em prática. E daí também a missão desta casa, pois o seu sofrimento e as suas dificuldades, quando acompanhadas, vivem-se de forma diferente. E por isso a Sara, no vídeo da “História do mês”, deixa o conselho “quando tiveres em dificuldade, pede ajuda”. E o Diogo, professor de Tai chi, partilha que, para ele, “ser voluntário é promover a criação do outro”. Que no Centro e na vida saibamos cada vez mais pôr esta sabedoria em ação: a arte de acompanhar e ajudar cada um a viver e a ultrapassar as dificuldades do caminho, sabendo que elas inevitavelmente fazem parte. Bom caminho de Quaresma para todos!

P. Filipe Martins sj

Breves do Centro

1. Lanche de São Cirilo

1795603_705703249551121_5880389526324411178_nNo passado dia 13 de Fevereiro, o Centro São Cirilo teve um belo lanche para comemorar o aniversário do Santo que lhe dá o nome, tendo sido um encontro realmente esplêndido (todas as fotos aqui).

A equipa técnica do centro juntamente com todos os voluntários, os utentes que vivem no Centro e aqueles que nos visitam todos os dias reuniram-se para celebrar este momento, que começou com um lanche muito agradável e apetitoso, seguido de um teatro de sombras, sobre a vida de São Cirilo, preparado por alguns utentes do Centro e com a ajuda dos técnicos e culminou com uma missa presidida pelo Provincial da Companhia de Jesus, que nos visitou nesse dia.

O sentimento que ficou é maravilhoso, pois percebe-se que este Centro está a fazer um grande trabalho ao ajudar tantas pessoas que não são tão afortunadas na vida. O meu desejo é que este trabalho se mantenha no futuro e espero ter o prazer de desfrutar de outro lanche em breve.

Despoina Stavrou

2. Apresentação Programa Mentores

10426319_698774183577361_8253573430469205320_n

 

“Num mundo globalizado, é impossível tentar não ver o que se passa olhando para o outro lado, porque não há outro lado.”

Daniel Innerarity, in A Sociedade Invisível, 2009, p.125

 

 O desafio lançado pelo Alto Comissariado para as Migrações através do seu Programa Mentores para Imigrantes (mais informação aqui), por se enquadrar de modo muito imediato e explícito na filosofia de acção do Centro Comunitário São Cirilo, despertou incontornavelmente a nossa vontade de dar forma a este projeto no Centro. Dele já fizemos uma primeira apresentação na Newsletter de Dezembro.

Dando assim corpo à ideia, percorremos nas últimas semanas a primeira fase de implementação do Programa, a sua apresentação e divulgação, bem como o recrutamento de voluntários, isto é, os candidatos a Mentores para Imigrantes. Com um total de três apresentações (no Centro Comunitário São Cirilo, no pólo da foz da Universidade Católica e no pólo de biotecnologia da Universidade Católica), formámos já uma Bolsa de Mentores com dez candidatos que demonstram uma grande vontade de colaborar connosco no sentido de proporcionarmos experiências de aprendizagem recíprocas, entreajuda e apoio mútuo a todos aqueles que querem contribuir para uma sociedade mais coesa.

Os próximos passos do projecto incluem a sua divulgação junto dos nossos utentes imigrantes para que, os que queiram, se possam juntar a esta caminhada de crescimento e desenvolvimento individual e em comunidade.

Luísa Ávila da Costa

3. Assembleia Social 2015

10991356_708357165952396_4345121701770810332_n

Decorreu nos dias 20 e 21 de Fevereiro, a Assembleia Social 2015 de Obras e Movimentos Inacianos, no Seminário Maior de São Paulo em Almada. Neste encontro estiveram presentes várias instituições e movimentos ligadas aos jesuítas portugueses, tendo o Centro Comunitário São Cirilo estado representado por vários elementos (direcção, equipa técnica e voluntariado).

O programa apresentado proporcionou, aos participantes, vivenciar diferentes momentos.  No primeiro dia tiveram lugar os temas “de onde vimos” com a apresentação do Pe. Filipe Martins sj, e “a que somos chamados” com a presença de António Barreto, Susana Refega, Pe José Almeida e ainda o Pe. Herminio Rico sj. Em ambos os momentos existiram espaços de reflexão individual e de trabalhos de grupo. A tarde terminou com uma eucaristia presidida pelo Pe Domingos Freitas sj. A interacção entre os representantes das Obras foi uma constante, e por isso o dia não poderia ter terminado sem o convívio proporcionado pela “ Social Hour” e pelo “Cantinho das Obras”.

O segundo dia teve início com o tema “O corpo universal em que trabalhamos” com a presença do coordenador mundial do setor social dos Jesuitas – Patxi Alvarez de los Mozos sj, seguido de uma reflexão sobre “O futuro próximo”, e ainda uma apresentação do caminho percorrido pelo setor social espanhol, conduzida pelo Pe. Alberto Ares sj – representante do Apostolado Social em Espanha.

No final destes dois dias, com todos estes momentos e vivências partilhadas (fotos aqui), prevalecia um sentimento de pertença a um grande conjunto de obras que partilham a mesma filosofia de intervenção social – a Espiritualidade Inaciana.

“Sozinhos vamos depressa, juntos vamos mais longe”

Cristina Rocha

História do mês

Neste vídeo somos convidados a percorrer a história da Sara, uma pessoa que tenta a cada dia ser mais positiva.

Voluntariado do mês

As aulas de Tai-Chi Chuan são das atividades mais desinstaladoras cá do Centro São Cirilo. Porém, conseguem aliar perfeitamente dois mundos: o físico e o espiritual.

Atenção às margens

1. “Às Paredes Confesso” – longe da vista…

as paredes

O canal de televisão SIC emitiu no dia 19 de Fevereiro uma reportagem intitulada “Às Paredes Confesso” (ver aqui), onde retrata a realidade de milhares de pessoas que vivem, algumas anos a fio, esquecidas em quartos de pensões ou de residências particulares, pagos directamente pela Segurança Social ou com os rendimentos das prestações sociais (RSI – Rendimento Social de Inserção, reformas mínimas, pensões de invalidez, etc.).

Esta reportagem dá a conhecer uma realidade escondida entre quatro paredes. Revela as condições indignas e desumanas em que vivem muitas destas pessoas, confinadas a quartos de dimensões exíguas – alguns em caves ou em edifícios não destinados a habitação – sem condições mínimas higiene e salubridade, mal arejados, húmidos, com rendas mensais que oscilam entre os 150 e os 250 euros. Muitos dos que habitam nestes espaços vivem na iminência de serem expulsos do alojamento por atrasos no pagamento, ou porque o RSI foi suspenso por alguma falha nos inúmeros procedimentos burocráticos ou porque a Segurança Social deixou de emitir as credenciais para pagamento dos quartos – que é o que está a acontecer actualmente. A reportagem alerta ainda para a aparente falta de fiscalização deste tipo de alojamento por parte das entidades competentes.

Esta é uma realidade bem conhecida do Centro Comunitário São Cirilo. Muitos dos utentes que frequentam a instituição vivem nestas condições. O seu rendimento mensal esgota-se na renda do quarto (por vezes nem chega) e resta-lhes recorrer a instituições para suprir necessidades básicas como a alimentação, vestuário, medicamentos e outras. Em nome do respeito pelos Direitos Humanos mais elementares, urge que o Estado em conjunto com a sociedade civil e com as próprias pessoas que vivem esta dura realidade, pensem novas soluções para garantir o acesso a uma habitação condigna a todas/os as/os cidadãs/ãos.

2. Plano Estratégico para as Migrações (2015-2020) em discussão pública

plano

Depois dos I e II Plano para a Integração dos Imigrantes que vigoraram respectivamente entre 2007-2009 e 2010-2013, o governo reconhece que as alterações verificadas nos últimos anos no perfil migratório do país (com um decréscimo da população imigrante e um aumento muito substancial da emigração) impõem novos desafios e exigem uma gestão mais articulada dos fluxos de emigração e emigração. Neste sentido foi elaborado o Plano Estratégico para as Migrações 2015-2020, que esteve recentemente aberto a discussão pública (documento disponível aqui).

O Plano assenta em cinco eixos prioritários: i) a consolidação das políticas de integração de imigrantes; ii) a implementação de medidas de promoção da inclusão dos novos portugueses (ou seja, dos descendentes de imigrantes e todos os que entretanto acederam à nacionalidade portuguesa); iii) políticas de coordenação dos fluxos migratórios que passam pela captação e fixação de migrantes no país; iv) políticas de reforço da legalidade migratória e da qualidade dos serviços migratórios; e v) medidas de incentivo, acompanhamento e apoio ao regresso dos cidadãos nacionais emigrantes.

Entre as 102 medidas propostas neste documento destacam-se, no que toca às iniciativas de apoio à integração de imigrantes, a criação de um plano de formação nacional para técnicos que desenvolvem trabalho na área da integração de imigrantes, o reforço do ensino da língua portuguesa ou medidas de promoção do reconhecimento académico e profissional dos imigrantes. Está prevista também a criação de “vistos talento” para atrair talentos e empreendedores qualificados, assim como medidas que promovam a atração e mobilidade no ensino superior de estudantes estrangeiros. No domínio das políticas de incentivo ao regresso dos portugueses emigrantes prevê-se, entre outras, a implementação de iniciativas de atração de emigrantes empreendedores, o apoio à contratação de portugueses altamente qualificados que residam no estrangeiro ou a promoção de políticas de apoio à reintegração de emigrantes economicamente vulneráveis não residentes em território nacional há mais de um ano.

3. Emigrantes que regressam esperam um ano até poderem aceder ao RSI

image_thumb[13]Em aparente contradição com uma das medidas propostas pelo governo no Plano Estratégico para as Migrações acima referenciado (a adopção de políticas de apoio ao regresso a Portugal e reintegração de emigrantes economicamente vulneráveis) está a nossa actual legislação que que exige aos cidadãos portugueses bem como aos membros do seu agregado familiar o preenchimento de um período mínimo de um ano de residência legal em território nacional para poderem aceder ao Rendimento Social de Inserção (RSI). Quer isto dizer que quem emigra e regressa ao país tantas vezes em situação de fragilidade económica (e também emocional e social), tem de aguardar um ano até poder aceder a esta prestação social.

A pedido do provedor de Justiça, José Francisco de Faria Costa, o Tribunal Constitucional analisou o decreto-lei de 2012 que impõe esta medida legislativa, e veio agora considerá-lo inconstitucional considerando que viola o princípio da igualdade. Resta esperar que a decisão do Tribunal Constitucional produza efeitos práticos a breve prazo. (Ler aqui a posição oficial do Provedor da justiça).

Selecção e redacção por Paula Ferreira (Directora do Centro)

© 2018 Centro Comunitário São Cirilo