Month: April 2015 (page 1 of 2)

Editorial

Organizar a Bondade

Sai esta Newsletter poucos dias depois da Assembleia de Curadores do Centro. Quem conhece mais de perto o mundo das associações e IPSS sabe que há no ano dois momentos particulares. Um é Novembro/Dezembro, em que se elaboram o plano de atividades e o orçamento para o ano seguinte. E outro é este de Março/Abril, em que se fecham as contas e se escreve o relatório de atividades do ano transato.

E foi isso que aconteceu na noite do passado dia 20 de Abril. A debate estavam o Relatório de Atividades e o Relatório de Contas 2014, preparados/coordenados pela diretora Paula Ferreira e pela tesoureira Sara Gonçalves. E foi muito bom ver como uma obrigação legal, que em muitas instituições é um pro forma aborrecido, se tornou um serão animado, com a apresentação dos seus pontos principais, e muitas perguntas e sugestões por parte dos membros dos vários Órgãos Sociais. Mesmo a saúde financeira do Centro, muito preocupante há uns anos, dá agora sinais mais animadores, apesar dos desafios e exigências que ainda temos pela frente.*

Estes são sempre momentos em que somos obrigados a parar, pensar de forma organizada o que se quer fazer, e avaliar de forma organizada o que se fez. Quase pareceria que “organização” e “bondade” são palavras que não casam. E haverá sempre necessidade de uma bondade mais espontânea e imediata, para responder a necessidades imprevistas e urgentes. Mas percebemos cada vez mais que a missão do Centro é de “capacitação”, havendo outras instituições que à “emergência” se dedicam. E é a “organização” que nos tem permitido aproveitar ao máximo todos os recursos humanos e financeiros de que dispomos, para que redundem numa ajuda mais sistemática e duradoira àqueles que a nós recorrem.

Às vezes pergunto-me se também Jesus teria feito “planos de ação”. Sem dúvida que estava muito disponível para as necessidades autênticas de cada pessoa e de cada momento. Mas alturas houve em que O procuravam e ele se tinha ausentado, fosse para rezar ao Pai nos montes à noite (e avaliar o dia e pensar os próximos passos da sua missão?), fosse ao perceber que era chamado, nesses momentos, a lugares diferentes daqueles que seriam os esperados. Que a par da espontaneidade possamos também crescer nesta capacidade, para que a Bondade chegue mais longe e permaneça mais fundo.

P. Filipe sj

* A quem ainda não teve oportunidade de ler os dois documentos sobre as Atividades, disponíveis para descarga na página inicial do nosso site, fica o convite de o fazer (nomeadamente a parte inicial do Relatório de Atividades 2014, que apresenta o “modelo de intervenção” do Centro de uma forma sistemática).

Breves do Centro

1. Formação em “Cuidados de Saúde”Cuidados de Saúde

No dia 1 de Abril realizou-se a Formação em Cuidados de Saúde, que faz parte do nosso ciclo de formações quinzenais, tendo desta vez sido frequentada por utentes internos e apoiados em refeição.

A sessão foi organizada tendo em conta quatro assuntos-base: Higiene Pessoal, Vacinação, Comportamentos de Risco/ Adições e Prevenção de Doenças Sexualmente Transmissíveis. Contámos com a colaboração do Centro de Saúde da Carvalhosa e do CDP-Centro de Diagnostico Precoce do Porto, através da disponibilização de panfletos com informações uteis, e ainda alguns elementos para a elaboração de um “kit” (artigos de higiene, meios preventivos de transmissão de doenças, etc.) oferecido a cada participante no final da sessão.

O envolvimento dos onze participantes foi bastante vivo, uma vez que no decorrer da Formação existiu uma troca constante de informação, impressões, desmistificação de mitos, etc. Muito positivo foi também o efeito da formação, pois logo no seu final alguns utentes procuraram o Gabinete Social para actualizarem os Boletins de Vacinas, para encaminhamento para teste de HIV, e outros.

Cristina Rocha

2. Início das Atividades Livres

Aulas de desenhoFoi no final do mês de Abril que mais um ciclo se iniciou no Centro Comunitário São Cirilo. O nosso investimento tem passado por oferecer ao nosso público atividades e formações que ajudem a adquirir novas capacidades, a abrir horizontes, e a crescer em autoconfiança e na capacidade de relação. Nesta lógica foi criado o novo conceito de Atividades Livres, abertas a utentes, voluntários e a quem mais as queira usufruir, de forma gratuita e sem obrigatoriedade de presença constante. O seu objetivo é não só o domínio dos conteúdos, mas também a interação entre todos os participantes, misturando experiências, nacionalidades e mundos sociais diversos.

Foram assim criadas, para já, as atividades de “Oficina de Desenho”, dada pela Inês Ferreira, com formação em Belas Artes, funcionando às Segundas-feiras das 11.30 às 12.30; e as Danças Latinas, conduzidas pelo professor de dança Francisco Font Bell, às Sextas-feiras das 11.30 às 12.30. Sendo atividades abertas, o convite a participar é extensível a qualquer pessoa que as queira frequentar (mesmo a si, caro leitor!).

Danças Latinas

Tem sido muito gratificante ver o entusiasmo quer dos professores quer dos alunos inscritos. Percebem que se pode sempre aprender mais, e que existem oportunidades que muitas vezes nos são dadas e que temos mesmo é de as aproveitar. O que acaba por permitir uma grande descoberta de dons por parte dos alunos, e de partilha por quem já os descobriu, no caso dos professores. Pois tudo aquilo que não se dá e partilha, acaba por se perder.

Ricardo Baptista Dias sj

3. Formação “Espiritualidade e Religiões”

19326_741679639286815_3839522279886299531_nQuem imaginaria que há no mundo tantas religiões, e que a história de cada uma é tão rica e variada? Quem diria que o desejo de espiritualidade, e alguma forma de religião organizada, sempre esteve e está presente em todas as culturas e em todos os tempos? Quem se lembraria que o ponto mais comum de todas as religiões é a chamada “Regra de Ouro”: faz aos outros o que gostarias que fizessem a ti? E quem diria que o afastamento da fé é muitas vezes provocado pelo mau testemunho de quem a vive, e que esta consciência nos desafia a todos a tentar viver a nossa religião, e a sua exigência de bem, com fidelidade e inteireza?

Foram estas e muitas outras coisas que pudemos aprender na formação “Espiritualidade e Religiões”, no passado dia 29 de Abril. Ouvimos, debatemos, opinamos, conversámos e discordámos, com a liberdade de quem pensa por si próprio, e com o respeito e alegria de quem sabe que, mesmo com estas diferenças, o caminho se faz em conjunto. Obrigado ao Centro São Cirilo por mais esta oportunidade de aprendizagem e crescimento. E obrigado por ser espaço de encontro entre tantas pessoas diferentes, com tantas experiências, nacionalidades e crenças.

Um participante

História do mês

Neste mês de Abril ficamos a conhecer a história do Sr. José Henrique, um homem decidido e bem-disposto, e sobretudo com a consciência do caminho feito e ainda por fazer.

Voluntariado do mês

Do you speak english? É nas aulas de inglês, com a professora Mónica, que se ultrapassam as dificuldades de falar e escrever o inglês. Este é mais um dos nossos voluntariados.

Atenção às margens

1. “Café Memória” – Para não esquecer quem esquece

1O “Café Memória” é um ponto de encontro para pessoas com problemas de memória e demência, seus familiares e cuidadores, procurando fomentar a partilha de experiências, o suporte mútuo e combater o isolamento social a que muitas/os estão sujeitas/os. Num ambiente informal, acolhedor, reservado e seguro, promove-se a interação entre todos/as os/as participantes, debatem-se temas relevantes, disponibiliza-se informação útil e apoio emocional, e promovem-se atividades lúdicas e estimulantes para quem sofre de demência ou problemas de memória.

As sessões do Café Memória decorrem mensalmente e atualmente são sete os pontos de encontro: três em Lisboa, um em Cascais, um em Campo Maior, um em Viana do Castelo e outro no Porto, onde as sessões acontecem no Espaço Atmosfera M do Montepio (Rua Júlio Dinis, nºs 158-160) todos os segundos sábados de cada mês, das 10h00 às 12h00.

Na página oficial do Projeto (ver aqui) explica-se como decorrem estes encontros ao sabor do café: começam com o acolhimento individual de cada participante, segue-se a apresentação de um tema por um/a orador/a ou a realização de atividades, e vem depois a pausa para café, que se pretende um momento informal de convívio entres todos/as. Estas sessões são livres, gratuitas e não exigem marcação prévia. É sem dúvida um café para degustar com todos os sentidos.

2. Mais de dez mil pessoas ainda vivem nas “ilhas” do Porto

2Foi apresentado publicamente no dia 20 de Abril o estudo “’Ilhas’ do Porto – Levantamento e Caraterização” encomendado pela Câmara Municipal do Porto e coordenado por Isabel Breda Vázquez e Paulo Conceição, investigadores da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. Este levantamento revela que as 957 “ilhas” que ainda restam na cidade Invicta alojam cerca de 10 400 pessoas (4,4% da população residente no concelho). Apesar de ser um número significativo, quando comparado com os dados de 2001, constata-se que a população que reside neste tipo de núcleo habitacional caiu para quase metade, o que representa o desaparecimento de 234 “ilhas” da malha urbana da cidade.

Estas habitações de dimensões exíguas, na sua maioria degradadas e velhas (83,6% das “ilhas” foram construídas antes de 1951) e quase sempre sem condições de salubridade, são ainda, muitas vezes, a única solução para quem vive com parcos recursos. É isto que o estudo prova ao revelar a baixa estrutura dos rendimentos dos agregados familiares que aqui vivem e o seu perfil ocupacional: quase metade dos residentes são reformados (44,9%), seguindo-se os que se encontram em situação de desemprego (19,1%) e apenas 18,1% estão a trabalhar. A renda média de uma casa de “ilha” é de 85 euros, mas quando se olha para os contratos celebrados há menos de 10 anos, este valor sobe para 162 euros. E apesar dos valores cobrados por este tipo de alojamento ser bastante inferior ao preço de mercado praticado na cidade do Porto, o estudo revela que para um terço destas famílias o valor da renda é incomportável.

Sabemos, pelo contacto diário com as/os utentes do Centro Comunitário São Cirilo, que para quem vive com o rendimento social de inserção, pensões baixas ou salários mínimos, este tipo de alojamento é a melhor das alternativas (ou talvez a única) a um quarto de pensão. Importa por isso equacionar a reabilitação e preservação destes núcleos habitacionais. E também porque as “ilhas” são parte integrante do património urbanístico e da história da Cidade e espaços de intensa vivência comunitária que, como reconhece a própria autarquia portuense, podem funcionar como uma “oportunidade de repovoamento” (ver aqui).

3. Mulheres continuam a ser alvo de discriminação económica e social

3As mulheres continuam a sofrer de discriminação económica e social e são forçadas a ajustar-se a um “mundo de homens”, lê-se num relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) publicado no dia 27 de Abril de 2015. Globalmente há mais desemprego feminino do que masculino, e mesmo quando trabalham as mulheres têm rendimentos inferiores: em média, dispõe de um rendimento mensal 24% mais baixo do que o dos homens. Em Portugal, o hiato é de 17,8%, de acordo com o mesmo documento.

O documento é publicado numa altura em que a comunidade internacional discute a agenda do desenvolvimento para o pós-2015 (final do programa “Objetivos do Milénio”), e coincide com o 20.º aniversário da comemoração da 4.ª Conferência Mundial sobre Mulheres, em Pequim, que determinou uma agenda para melhorar a igualdade entre géneros.

A partir de estatísticas de diversas fontes e de diferentes anos, o Progresso das Mulheres do Mundo 2015-2016 refere que, apesar da diferença de rendimentos observada, as mulheres trabalham, muitas vezes, mais horas do que os homens, uma vez que despendem em média 2,5 vezes mais tempo no chamado trabalho não pago (trabalho doméstico, cuidados com as crianças e idosos, etc.). Ainda assim, Portugal é um país considerado desenvolvido em várias matérias: tem leis contra discriminação entre géneros a nível salarial e no recrutamento, e criminaliza o assédio sexual no local de trabalho.

O relatório determina 10 prioridades para a acção pública, começando por reivindicar mais e melhores empregos para mulheres, a redução da disparidade profissional e salarial entre homens e mulheres, o fortalecimento da segurança económica das mulheres ao longo da vida, a redução e redistribuição do trabalho doméstico, e o investimento em serviços sociais com consciência das questões de género.

Seleção e redação por Paula Ferreira (Diretora do Centro)

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