Month: June 2015

Editorial

Espírito de Pentecostes

Celebrámos na semana passada a festa de Pentecostes, o momento da história em que os apóstolos, já despertos pela confiança da Páscoa de que há vida para além da cruz, se lançam decididamente pelos caminhos do Império Romano a anunciar a “boa nova”, a noticia de que é na entrega e na comunhão que a vida ganha sentido. Esta é sempre a ação do Espírito: acolher e animar, desafiar e fazer crescer, ajudar a ultrapassar medos e resistências, para que sejamos cada vez mais tudo o que podemos ser.

É este mesmo Espírito que continua presente no Centro. O Centro começa por ser “família que acolhe”, como diz a Ana Paula André no vídeo da História do mês, “lar onde me sinto segura”. E é também impulso e desafio de crescimento, “pois temos sempre muitas coisas a melhorar”. Acrescenta a professora Maria de Lurdes, no Voluntariado do mês, que “as aulas de música servem para nos fazer viajar”. É bonito pensar na missão de capacitação do Centro desta forma: ajudar a (voltar a) ser “viajantes da vida” aqueles que nos procuram, e receber deles e partilhar esse mesmo dinamismo! Da animada confusão aos almoços, à “babilónia” de nacionalidades que são as aulas de português, das alegres conversas de corredor que juntam utentes, técnicos e voluntários, às “conversas sérias” em gabinete que por vezes também são necessárias, assim é a presença do Espírito nesta casa.

E esta é a mesma pergunta que fica a cada um: “como me ando a deixar desafiar pelo Espírito?” Que o contentamento pelo já alcançado (é importante!) não anule a inquietação pelo “mais além” (para não ficarmos na mediania ou na autocomplacência!). Era Teresa de Lisieux que dizia “poucas pessoas sabem o que Deus faria com elas, se tivessem a coragem de se entregar à vida completamente”. Que este “mais além” continue a ser a missão do Centro, fiel também à entrega dos voluntários que continuam a surgir, e à generosidade de quem com os seus (ainda muito necessários) donativos nos apoia e em nós confia. O projeto São Cirilo é mesmo “missão partilhada”. Obrigado por estar ai, e bom e desafiante “espírito de Pentecostes” para todos!

P. Filipe Martins sj

Breves do Centro

1. A Casa vai a Casa

11245793_750419295079516_7819166320971732384_n No dia 12 de maio “A Casa veio a Casa”! No âmbito de um projeto da Casa da Música, recebemos 2 músicos (Paulo Neto e Bruno Esquível) que vieram ao Centro realizar um workshop em que tocámos, cantámos e fizemos muita música com as mãos, corpo e letras. Apresentámo-nos dizendo os nossos nomes a cantar e, de repente, tínhamos a sala cheia de sopranos e barítonos!

Mas foi quando o microfone começou a passar de mão em mão que a audiência se revelou como verdadeiros músicos em potencial. Cantámos músicas portuguesas, canções de infância e de outras nacionalidades. E mesmo quem não se atrevia a cantar, não resistia a baloiçar o corpo ao som das músicas, do piano e do tambor.

Terminámos com uma música de infância brasileira acompanhada por gestos e a abraçarmo-nos… a música naquela tarde alegrou-nos e percebemos que quem “canta” por gosto não cansa!

Mónica Maruny

2. Visita a Serralves

IMG_2638Como medida de carácter motivacional, organizou-se um pequeno grupo de sete pessoas para visitar o Museu de Serralves.

Na primeira parte da visita, vimos o museu onde estava uma exposição de uma artista polaca onde por intermédio das suas obras retorcidas em ferro, faziam transparecer o caos que há no mundo. Na segunda parte, visitámos os jardins e a casa original do tereno, com um estilo muito interessante (arte deco). Por fim, terminámos a visita com um pic-nic dos jardins enormes e belíssimos de Serralves, inspirados nos jardins de Versalhes.

Em suma, foi um dia passado descontraidamente, em boa companhia, muito bem orientados pelas duas guias do museu e sempre acompanhados por um majestoso dia de sol. Uma experiência a repetir!

João Duarte

3. Um fim-de-semana recheado de boas energias

Dom Turno V aNos dias 16 e 17 de maio decorreu mais uma campanha de recolha de alimentos, destinada ao Centro Comunitário São Cirilo. Nesta ocasião, a campanha decorreu no Pingo Doce da Av. Marechal Gomes da Costa, na zona da Foz.

O objetivo desta campanha passava não só por dar a conhecer o Centro e o trabalho que lá se desenvolve, mas sobretudo por angariar géneros alimentares que permitissem reforçar os cabazes alimentares que o Centro diariamente distribui, bem como assegurar a alimentação dos utentes que vivem na instituição.

Enquanto voluntária do Centro São Cirilo foi a primeira vez que participei numa campanha de recolha de alimentos, e os sentimentos que experienciei foram de uma enorme alegria e orgulho, por dar a cara por esta obra. As pessoas foram bastante recetivas em ouvirem-nos e em dar o seu contributo, o que nos dá ainda mais “certezas” de que estamos no caminho certo para a construção de um mundo melhor!

Sofia Mendes

História do mês

Neste pequeno vídeo somos convidados a percorrer a história da Ana Paula, uma mulher com uma energia e alegria muito características.

Voluntariado do mês

As aulas de Música imprimem um ritmo único cá no Centro, impondo uma boa disposição na vida de quem por cá passa. Neste vídeo acompanhamos uma aula a funcionar atualmente e o testemunho da professora Maria de Lurdes Costa.

Atenção às margens

1. FamiliarMente – Projecto para apoiar quem sofre em silêncio

1No dia 16 de maio decorreu em Lisboa a apresentação oficial da FamiliarMente – Federação Portuguesa das Associações das Famílias de Pessoas com Experiência de Doença Mental, constituída por associações de várias regiões do país ligadas à saúde mental.

Joaquina Castelões, presidente da FamiliarMente, sublinhou a importância da criação de uma estrutura nacional vocacionada para representar os familiares de pessoas com doença mental, que considera “doentes ocultos”. Numa entrevista concedida a um jornal nacional (ver aqui) a representante desta estrutura referiu que na doença mental “há a pessoa que tem o problema e a família que tem de o tentar resolver. A família também fica doente, vive e convive com a doença 24 horas por dia”. Muitas famílias sentem que têm pouca informação e também neste domínio a federação pretende intervir. Por outro lado, constata-se a necessidade de criar “mediadores/as” ou “técnicos/as de referência” que façam a ponte entre os familiares, enquanto cuidadores informais, e os serviços de saúde e de apoio social.

Outras prioridades da FamiliarMente passam pela implementação dos cuidados continuados integrados de saúde mental que, apesar de previstos em projeto desde 2011, tardam em ser concretizados; e pela criação de um observatório que faça um levantamento das respostas na área da saúde mental já existentes e ainda das que há necessidade de existir.

2. Orquestra Geração – Instrumentos para a inclusão

2O Projecto Orquestra Geração foi criado em 2007 para combater o abandono e o insucesso escolar e para promover a inclusão social das crianças e jovens de contextos ditos problemáticos. No início eram 15 alunas/os e uma Escola na Amadora. Hoje são já cerca de 900 crianças do 1.º ao 3º ciclo de ensino, e 18 escolas na Área Metropolitana de Lisboa, Coimbra e Gondomar. Este projecto foi inspirado na metodologia venezuelana do “El Sistema”, lançada em 1975 pelo maestro José António Abreu, com objectivo de retirar as crianças da pobreza com o recurso à música clássica. Baseia-se num método de aprendizagem muito simples: começa-se com um instrumento na mão, vendo e imitando o que o/a professor/a faz, tocando músicas populares que todos/as conhecem.

Em Portugal, depois de uma primeira intervenção nas escolas que procurou trabalhar a concentração, a auto-estima e o trabalho de grupo, fazendo também do contexto escolar um espaço apetecível, a próxima fase do projecto passa por investir nas orquestras municipais, que juntam os/as alunos/as de várias escolas da mesma zona. Esta é uma maneira de não largar quem acaba o 9.º ano e de criar um sentido de comunidade.

Já habituados/as às grandes salas, no passado dia 19 de Maio os/as jovens da Orquestra Geração viveram um momento único no Teatro São Luiz em Lisboa: juntaram-se a grandes nomes da música como Mário Laginha, Camané, Rodrigo Leão ou Celina Pereira, para tocarem numa gala de angariação de fundos para financiar novos projectos, novos instrumentos e outras iniciativas. Mais informações sobre a Orquestra Geração podem ser encontradas aqui.

3. Como vivem as/os utentes das Instituições de Solidariedade Social

3No final deste mês de maio foi dado a conhecer o estudo “Utentes de Instituições de Solidariedade Social – Uma abordagem à Pobreza nesta população” (consultar aqui) conduzido pela Universidade Católica em parceria com o Banco Alimentar e a Entreajuda. Trata-se da terceira edição de um projecto que teve início em 2010, e que tem como objectivo proceder a uma caracterização abrangente das/dos utentes das Instituições de Solidariedade Social, focando áreas tão diversas como a situação económica do agregado familiar e formas de lidar com a falta de recursos, a alimentação, as redes relacionais, a saúde, as condições de habitação ou o sentimento de pobreza.

Entre os principais resultados obtidos, o estudo destaca a questão dos baixos rendimentos – cerca de 52% dos agregados familiares auferem um valor mensal igual ou inferior a 400€ (25% das famílias auferem menos de 250€, 28% entre 251€ e 400€, 20% entre 401€ e 500€ e 28% mais de 500€), sendo que os agregados familiares com menores rendimentos correspondem a indivíduos com menos escolaridade e com agregados mais pequenos. A casa (70%) e a alimentação (64%) são as duas maiores despesas, seguidas das despesas com a saúde (39%). Cerca de 53% das pessoas inquiridas afirma que o rendimento da família nunca é suficiente para viver e 33% que às vezes é suficiente e apenas 14% refere que o rendimento familiar é sempre suficiente para viver.

Quanto à fome, o trabalho indica que 20% dos inquiridos admitiram ter tido falta de alimentos ou sentido fome alguns dias por semana nos seis meses anteriores ao estudo. A estes somam-se os 13% que disseram ter tido fome pelo menos um dia por semana. Aliás, o estudo refere que em 87% dos casos a ajuda das Instituições de Solidariedade Social a estes/as utentes traduz-se em cabazes ou refeições. Comparando os dados apurados em 2014/2015 com os de anos anteriores, parece haver uma ligeira melhoria na percepção que os indivíduos têm sobre as suas condições de vida. Em 2012, cerca de 82% das pessoas inquiridas dizia sentir-se pobre e em 2014 o valor é de 79%. Entre os indivíduos que se sentem pobres destacam-se sobretudo aqueles que têm idade inferior aos 65 anos, reduzida escolaridade e baixos rendimentos. O estudo refere também que mais de metade das pessoas inquiridas (55%) considera que a sua vida está pior do que estava há cinco anos atrás. Quando olham o futuro, a maioria (42%) considera que a sua vida estará igual e 30% que estará melhor.

Estes dados reflectem aquela que é também a realidade de muitos/as dos/das utentes que diariamente frequentam o nosso Centro, e ajudam a compreender o papel central que as Instituições de Solidariedade Social continuam a ter no apoio às pessoas mais vulneráveis e em situação de maior fragilidade económica e social.

Seleção e redação por Paula Ferreira (Diretora do Centro)

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