Month: July 2015

Editorial

O “espírito do magis

Diz quem se aproxima dos jesuítas que temos uma “quase-obsessão” pelas avaliações. Não há atividade que não se conclua sem uma boa avaliação, reunião que não inclua uma ronda final de olhar critico, ou ano cujo momento derradeiro não seja para identificar ensinamentos a manter e elementos para melhorar no ano a seguir. Era o próprio Santo Inácio, fundador dos jesuítas, que insistia nos dois “exames de consciência” diários. E mesmo que a oração tivesse que “cair” por falta de tempo ou de oportunidade, o “exame”, a “tomada de consciência” do dia, deveria ser sempre mantido.

Há quem não esteja tão sintonizado com este espírito. Porque pode parecer que não seja necessário: se de forma geral algo correu bem ou deixou bom ambiente, porque estar ainda a “esmiuçar” até ao detalhe? Há quem tema também que a avaliação leve ao perfeccionismo, a uma certa angustia de nunca se alcançar o ideal. Mas nada mais longe da intenção de Santo Inácio. Ele vivia desde logo uma profunda gratidão pela vida, “vendo Deus em todas as coisas”. O alcançado é já motivo de alegria! Mas isso não o impedia de querer “mais”: olhar mais fundo, servir com mais entrega, chegar mais longe. É isso o “magis” inaciano (palavra latina que significa “mais”), a pôr em prática sempre e em todas as circunstâncias. Não por obsessão ou perfeccionismo, mas porque só assim chegamos a ser tudo o que Deus nos chama a ser, fazer tudo o que está nas nossas mãos, e tocar a alegria que é fruto dessa entrega e auto-superação sem reservas.

Aproximando-se o final do ano aqui no Centro, é também este “espírito de magis” que por cá se vive, nas várias avaliações (de eventos, de atividades, de formas de atuação) que vamos fazendo. Com a ajuda e a participação de tantos, o Centro continua a crescer. Os procedimentos vão-se tornando estáveis, mas há ainda muito por onde melhorar. Vamos comunicando com alegria o que fazemos, o que vai trazendo mais voluntários ao projeto. E lançaremos em breve uma campanha para angariar doadores regulares “amigos do Centro”, pois são também as restrições financeiras que muitas vezes nos impedem de avançar com novas ideias e mais capacitação. Obrigado por estar aí, próximo e atento. E seguimos unidos, no “espírito do magis” que constrói um mundo melhor!

P. Filipe Martins sj

Breves do Centro

1. Avaliação final das Atividades

IMG_2745Realizou-se no passado dia 22 de Junho uma reunião de final de ano dos voluntários responsáveis pelas actividades do Centro. “Professores” de português, inglês, informática, alfabetização, música, cinema e tai-chi encontraram-se à hora marcada, para, depois de um breve lanche inicial, avaliarem o ano que termina e pensarem em conjunto melhorias para o novo ano que começa. Este ano, pela primeira vez, também os “alunos” foram desafiados a avaliar as atividades e os seus “professores”, através de um inquérito simples e anónimo.

Estas atividades (pelo menos duas) fazem parte do chamado “projeto de vida” de cada utente acompanhado pelo Centro, e têm como objetivo não só a transmissão de conteúdos, mas também o desenvolvimento de hábitos e competências de trabalho e psicossociais. O balanço do ano é que, mesmo com as faltas, atrasos, dificuldades no processo de aprendizagem, as atividades valeram muito a pena. E sinal disso mesmo é a ligação e afeto que une muitos dos “alunos” aos seus “professores”.

E como já vem sendo habitual, o final do trimestre (que neste caso coincide com o final do ano) será assinalado por um “lanche de entrega de diplomas”, em que cada participante que tenha vindo a pelo menos 2/3 das aulas terá direito a um “diploma de participação”. Esta é mais uma forma de estimular a participação e o envolvimento de todos, tão mais necessário se olharmos para os desânimos e desistências que as dificuldades e o desemprego prolongado provocam. Ajudar a fazer face a esta “forma de pobreza” é também a missão do Centro. E mais um ano parece ter sido, com o empenho de todos e mesmo com as naturais falhas e imperfeições, “missão cumprida”!

Rita Santos

2. S. João no Centro

11020964_768707486584030_2924271149760913101_nQuem se aproximava do Centro São Cirilo na noite de 23 de Junho podia entrever o cheiro das sardinhas, a cor das bandeiras que precipitavam para a festa, a correria das crianças pela sala e as pequenas conversas que iam surgindo entre pessoas tão diferentes nos traços mas numa comunhão imensa nos gestos.

O serão começava assim com as pessoas que ali trabalham e apoiam, as que ali fazem casa e espaço de convívio e muitos amigos ao redor de uma mesa. Trocaram-se conversas, partilharam-se histórias, os mais novos iam passando pelos diferentes postos com desafios e lançavam-se os balões.

E logo surgiu o mote para o bailarico através de músicas tradicionais cantadas e acompanhadas à guitarra levando diferentes origens a entrar num lugar-comum. Porque entre as diferentes culturas e tradições há sempre uma ponte que se atravessa de mãos dadas com aqueles que trazemos ao lado.

Luísa Sobral

 3. Espaços do Centro

IMG_3198 Quem vier fazer uma visita ao Centro S. Cirilo, percebe que algumas mudanças, por circunstâncias várias, foram sendo feitas. E uma dessas mudanças foi ao nível dos espaços físicos do Centro, bem como a sua própria disposição e decoração.

Foi-se percebendo que este Centro poderia ficar ainda com um ar mais familiar, mais de casa e que não seria difícil tornar realidade esse desejo. Deste modo, foram sendo feitas algumas alterações com o material que temos, assim como com algum material que amigos do Centro muito amavelmente nos quiseram ceder, embelezando ainda mais a nossa instituição.

IMG_3199Aos poucos vamos fazendo deste Centro uma casa que é de todos nós, onde a harmonia e o bom gosto vão permanecendo. Pois mesmo na necessidade, na dificuldade e na falta de meios pode existir algo belo, bonito e confortável, onde dá gosto permanecer e viver.

Ricardo Baptista Dias sj

História do mês

Neste vídeo somos convidados a conhecer a história do Sr. Djaló, um homem que aprendeu a enfrentar as adversidades da vida com serenidade, sabedoria e fé.

 

Voluntariado do mês

A Oficina de Desenho e as Danças Latinas são duas actividades livres do Centro São Cirilo. São espaços de movimento e de reflexão, de interacção e de inspiração que aqui damos a conhecer através do testemunho dos dois professores voluntários, a Inês e o Francisco.

Atenção às margens

1. Portugal é o 2.º melhor nas políticas de Integração de Imigrantes

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 Apesar da crise, Portugal conseguiu manter o 2º lugar e subir a pontuação no IV Índex de Políticas de Integração de Migrantes (MIPEX), o estudo comparativo que avalia as políticas e medidas em matéria de migrações, implementadas nos países da União Europeia, Estados Unidos, Austrália, Canadá, Islândia, Japão, Coreia do Sul, Nova Zelândia, Noruega, Suíça e Turquia.

Das várias áreas políticas contempladas, o acesso à saúde, à educação e à residência de longa duração ressaltam como os menos positivos (ainda que dentro de parâmetros considerados favoráveis à integração); o acesso ao mercado de trabalho por parte dos/das imigrantes, o reagrupamento familiar, a luta contra a discriminação e a aquisição de nacionalidade são os indicadores que obtêm as pontuações mais elevadas (consultar os dados aqui).

Portugal é também considerado, segundo o estudo, o país da Europa do Sul com melhor resultado na promoção de igualdade e no combate à discriminação. Apesar de ser apontado como um dos melhores países no acesso dos/das imigrantes ao emprego com igualdade de oportunidades e direitos, refere-se que é frequente haver cidadãos/as estrangeiros/as a trabalhar abaixo das suas qualificações, e que enfrentam dificuldades no acesso a apoios sociais como o subsídio de desemprego.

Portugal atinge nesta última edição do MIPEX uma pontuação de 75 (numa escala de 0 a 100), subindo um ponto em relação ao último estudo realizado em 2010, facto que resulta de um maior acesso da população imigrante a medidas de protecção a vítimas de violência doméstica e também a medidas de apoio ao emprego, sendo neste domínio apresentado como exemplo o “Programa de Mentores para Imigrantes”, projecto no qual o Centro Comunitário São Cirilo colabora como parceiro. O primeiro lugar no MIPEX coube, como já em 2010, à Suécia.

 2. Vítimas de violência doméstica – recomeçar depois do acolhimento em casas de abrigo

2Num ano (2013), 1600 pessoas passaram por casas de abrigo em Portugal. Metade eram mulheres, a outra metade eram crianças, filhas dessas mulheres. O estudo Processos de Inclusão de Mulheres Vítimas de Violência Doméstica recentemente publicado (ver aqui), coordenado pela socióloga Maria das Dores Guerreiro, faz um retrato sobre as trajetórias de inclusão das vítimas de violência doméstica após a sua saída das casas de abrigo, e procura conhecer em que moldes ocorre a definição do projecto de vida e de autonomização das mulheres que passam por este tipo de estruturas.

Em traços gerais, as mulheres que recorrem a uma casa de abrigo vivem situações de elevado isolamento social, têm dívidas suas ou dos ex-companheiros, são desempregadas de longa duração, muitas têm fracas qualificações escolares e profissionais, e três quartos trazem os filhos consigo. O processo de autonomização não é fácil e são apresentados alguns obstáculos reais à sua concretização: o acesso a uma habitação (impedidas de regressar à casa onde viviam, que acaba por ficar muitas vezes entregue ao agressor), as baixas qualificações escolares e profissionais e o consequente impacto na empregabilidade, a dificuldade de inserção profissional e, portanto, a insustentabilidade económica.

O estudo alerta, por isso, para a necessidade urgente de repensar as lógicas e os modos de funcionamento das medidas de apoio ao emprego que actualmente estão disponíveis para estas pessoas. Aponta ainda uma série de outras recomendações nos mais diversos domínios: por exemplo, a adopção de medidas que possibilitem a permanência das vítimas no seu local de origem (em sua casa, caso queiram) através do incremento/efetivação de medidas de afastamento do agressor o mais precocemente possível e acautelando a segurança das vítimas. Ao nível da legislação laboral, recomenda que se acautele o direito ao subsídio de desemprego, quando o despedimento por iniciativa própria ou o abandono de posto de trabalho são comprovadamente motivados por violência doméstica. E no domínio da habitação sugere que se consolide e alargue a disponibilização de fogos reservados a vítimas de violência doméstica com rendas de baixos custos, na lógica de casas de transição para a autonomização.

3. “Oupa”, com André Tentugal e Capicua, leva música a bairros sociais no Porto

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Ensinar música, escrita criativa e vídeo no bairro social do Cerco, no Porto, é o mote do projeto Oupa, no qual se têm empenhado, nos últimos meses, André Tentugal, dos We Trust, e Capicua. O convite surgiu da Câmara do Porto e estendeu-se ainda a Vasco Mendes, realizador que tem criado vídeos para Batida e White Haus, entre outros. André Tentugal explicou que na origem da ideia esteve um projeto semelhante que a psicóloga Gisela Borges já tinha levado a cabo em Espinho. “A Câmara do Porto pegou na ideia e adaptou-a; o Oupa Cerco é um workshop de música com todas as fases do processo, da criação da música, dos beats e da escrita das letras à gravação dos temas”.

Nos workshops , incluídos no programa da autarquia “Cultura em Expansão”, estão residentes do bairro do Cerco, entre os 18 e os 30 anos. “Temos aqui histórias de vida incríveis, miúdos que já estiveram à porta da morte… gente muito lutadora”, elogia o músico e realizador. “Quando cá chegámos, o grupo era um pouco mutante, até que se criou umas [turma] de dez a 15 jovens que estão cá regularmente. São pessoas que sentem que têm algo a provar à cidade”, ilustra. “Contam-nos histórias de a polícia vir aqui e de os abordar, muitas vezes injustificadamente, e sentes que há muita verdade na forma como lidam connosco. E são muito generosos: é malta que está muito disponível para receber e para dar. Esse talento pode ser comprovado no espetáculo realizado no dia 5 de julho, no Rivoli, onde foi mostrado todo o trabalho feito”.

Olhar para as pessoas “de igual para igual e com respeito” é o mais importante num projeto que já redundou numa relação de amizade, garante André Tentugal. “Muitos são miúdos que cresceram juntos e se foram separando. O Oupa está a servir para se reencontrarem em algo construtivo e a inspirá-los a encontrar  um caminho, o que também era uma das missões do projeto”.

 Seleção e redação por Paula Ferreira (Diretora do Centro)

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