Month: September 2015

Editorial

Gratidão e generosidade

31Com esta edição a Newsletter do São Cirilo entra no seu segundo ano de vida. Depois dos primeiros anos de arranque e de estruturação da casa, o ano passado viu nascer este meio de partilha do muito que se vai fazendo pelo Centro, bem como dos temas e preocupações do meio social envolvente. O mais importante, claro, é “fazer o Bem bem feito” (como dizia um antigo Provincial jesuíta). Mas falar dele, sem orgulho mas também sem escondimento, permite que outros conheçam e se entusiasmem também por ele.

Nesta edição, convido-a/o a ver, para além dos textos, os vídeos das Histórias e dos Voluntariados. São um “apanhado” de momentos marcantes dos vídeos do ano passado, e têm momentos e frases comoventes de utentes e de voluntários. É para nós muito significativo que quase todos os primeiros já tenham alcançado a sua autonomização (e que continuem a visitar-nos!). E ótimo sinal que todos os segundos continuem este ano a fazer voluntariado no Centro. Talvez o olhar certo seja a gratidão, pela confiança e presença de outros e de outros. Como digo sempre aos voluntários no início de cada ano: “Não espere que no final do ano eu lhe agradeça, pois não nos está a fazer nenhum favor. Se está aqui é porque pressente que Algo, ou Alguém, o chama a fazer parte deste «sonho São Cirilo». E por isso a nossa gratidão não é para si, é (mutuamente) para Ele, por o ter chamado a si a fazer parte deste projeto!”

Mas a newsletter não estaria completa se não olhasse também para a frente, para as novidades do recomeço de ano. Estamos a mudar a “gestão dos projetos de vida” (há um artigo sobre isso), para tentar que o acompanhamento dos casos seja cada vez mais próximo e eficaz. Há novas atividades livres e novas parcerias com outras instituições, para que a dimensão “comunitária” do Centro esteja cada vez mais presente. Novos voluntários continuam a aparecer. E lançámos há pouco a campanha “Passaporte Solidário”, de forma a conseguirmos mais doadores regulares “Amigos do Centro” que nos ajudem a que este crescimento seja financeiramente sustentável (caso queira ou possa colaborar, saiba mais aqui). Há de facto gratidão quando estamos no mundo da forma certa: gratidão pela missão a cumprir, seja ela família e amigos, estudos ou emprego, voluntariado e/ou colaboração financeira. E gratidão por esta entrega ser também fonte de riqueza, pois “quanto mais dou, mais rico fico”. Votos de um bom e generoso recomeço de ano para todos!

 P. Filipe Martins sj

Breves do Centro

1. Atividades de Verão

11695767_778179738970138_3512774163504500974_nComo Agosto é o mês de Verão e dado que o Centro se encontrava de “férias” das atividades regulares habituais, percebemos que algo deveria ser feito de forma a preencher este tempo a “meio gás” de todos aqueles que pelo Centro vão passando. Assim foram planeadas as Atividades de Verão, que tiveram lugar sempre às Quartas-feiras entre as semanas de 22 de Julho a 26 de Agosto.

O ambiente foi sempre muito positivo e cativante, desde a primeira sessão com as saborosas pizzas feitas por todos e que nos proporcionaram um fantástico lanche, às alterações que com a customização de roupa aprendemos a fazer, dando largas à criatividade de todos os que participámos.

Terminado este ciclo com sabor a praia, o sentimento que permanece é a de “dever cumprido”, dado que se conseguiu aliar a vertente pedagógica ensinando sempre algo a quem veio participar nas atividades, com a vertente mais lúdica e descontraída, tornando o ambiente familiar do Centro ainda mais convidativo.

Ficaram as aprendizagens, a vontade de aprender mais, e o desejo de que o calor do próximo Verão venha rápido.

 Ricardo Baptista Dias sj

2. Os “projetos de vida” no Centro

IMG_3605Quem visita ou passa pelo Centro à Sexta-feira de manhã já se habitou a ver toda a equipa técnica “fechada” na sala atrás da entrada, ora conversando com calma ora discutindo com calor, durante todas essas horas. São as habituais “reuniões de equipa” semanais, onde para além de (muitas) outras coisas da vida do Centro, se debate e faz ponto de situação do chamado “projeto de vida” de cada utente ou família. Numa semana os internos, noutra os utentes de refeição, noutra ainda as famílias de cabaz, assim se percorre, uma vez por mês, cada um destes grupos apoiados pelo Centro.

Para quem está menos por dentro destas coisas, o “projeto de vida” (PV) é o eixo estruturador do percurso de cada pessoa no Centro. Delineado conjuntamente com o utente ou família em questão, o PV é o horizonte da intervenção, o “para onde” cada um caminha. Obter a autonomização por emprego ou pelo menos recuperar a prestação RSI, tratar dos problemas de saúde ou arranjar os dentes (essencial para muitos empregos!), conseguir o reescalonamento de dívidas ou obter nova Autorização de Residência (no caso dos estrangeiros), estas são algumas das muitas dimensões de cada PV, objeto do empenho da pessoa e da disponibilidade da equipa em acompanhar esse processo.

Por isso cada utente ou família tem um “gestor de PV”, o técnico psicossocial que mais de perto o/as acompanha, qual “acompanhante pessoal” que ajuda a desenvolver competências e a resolver dificuldades. Quanto aos outros técnicos (nomeadamente jurídico e de emprego), eles são “gestores de tarefa”, intervindo a nível prático nesse âmbito concreto e estando em constante contacto com o “gestor de PV”. Toda a ação da restante equipa e dos voluntários acaba por estar igualmente em estreita sintonia com o PV, assim se conseguindo a colaboração de todos para um acompanhamento efetivo, próximo e articulado de cada caso. E é um gosto cada vez que um PV se concretiza, é para isso na realidade que o Centro existe: para que, precisando inicialmente de nós, cada pessoa e família ajudada deixe de precisar de nós; e esse acaba por ser a melhor alegria que nos podem dar!

A equipa

3. Rearranque do ano

12027739_815383231916455_2324903355190630276_n12039616_815383218583123_8638909594962810292_n12039694_815383235249788_5208263804423521015_nA chegada do Outono traz sempre consigo o recomeço das atividades e formações no Centro. E por isso no dia 14 de Setembro demos reinicio às nossas atividades, que pretendem não só capacitar em novos conhecimentos e estimular hábitos saudáveis, mas também potenciar a integração social dos nossos utentes. Todas as atividades são dinamizadas por voluntários, que generosamente oferecem o seu tempo e o seu saber para ajudar os outros. É grande a variedade de atividades que recomeçam: o tai-chi, a musica, a informática, o português, o inglês, o cinema e os 30 minutos com Deus.

Paralelamente a estas atividades de carácter lúdico-pedagógico, iremos dar início ao ciclo de formações transversais que acontecem quinzenalmente, dadas pela equipa e com pessoas convidadas de outras instituições. Elas são mais um instrumento de capacitação, dando noções básicas – entre outras temáticas – de cidadania, relações humanas, saúde, organização habitacional, espiritualidade, técnicas de procura de emprego e prestações sociais.

Finalmente, este ano o Centro irá contar com uma animadora sociocultural, no âmbito de uma medida do IEFP, e começarão novas atividades livres de cariz lúdico que promovem competências transversais e criam dinâmicas que permitem aos utentes conhecer novas formas de ocupar o tempo, estruturar rotinas e criar laços de convivência que se tornam significativos.

Mais um ano que promete…. na construção de mundo melhor!

Paula Ferreira

Histórias do Centro

Neste vídeo, fazemos o resumo de todas as Histórias do Centro feitas ao longo deste ano que passou. Histórias tão diversas, tão cheias de uma procura por um caminho melhor.

Voluntariados do Centro

Com as atividades do Centro, os nosso voluntários mostram como a generosidade e o serviço podem perfeitamente caminhar juntos.

Neste resumo dos voluntariados feitos ao longo deste ano que passou, com os nossos voluntários conseguiremos construir um mundo bem melhor.

Atenção às margens

1. Os imigrantes continuam a enfrentar barreiras no acesso à saúde em Portugal

1A Entidade Reguladora da Saúde (ERS) elaborou recentemente um estudo em que analisa o acesso ao sistema de saúde pelos imigrantes em Portugal (ver aqui). De acordo com este documento, a população imigrante continua a enfrentar barreiras no acesso aos cuidados de saúde, devido às dificuldades linguísticas, diferenças culturais, problemas e dificuldades socioeconómicas, e também aos constrangimentos causados pelos próprios serviços.

Especialmente no caso dos imigrantes em situação irregular, identificaram-se questões relevantes no acesso a cuidados de saúde que muitas vezes decorrem do facto de os sistemas informáticos não permitirem, por exemplo, a referenciação para cuidados diferenciados ou, ainda, a prescrição de meios complementares de diagnóstico e de medicamentos.

O estudo revela ainda que as instituições do Serviço Nacional de Saúde (SNS) não têm dado cumprimento à obrigação de registar, tratar e monitorizar informação sobre todos os cidadãos estrangeiros que recorrem aos cuidados de saúde públicos. Esta situação leva a que não exista um efectivo conhecimento da realidade relativamente aos utentes estrangeiros, seja no que respeita à sua identidade, à sua nacionalidade e sua origem, seja ainda relativamente aos cuidados que são prestados e aos valores que lhes são efectivamente cobrados. Como o próprio estudo realça, esta falta de conhecimento limita a capacidade de desenhar políticas que promovam um acesso melhor e mais adequado dos imigrantes aos cuidados de saúde que lhes são legalmente garantidos.

No seguimento das conclusões deste estudo, a ERS emitiu uma recomendação destinada às Administrações Regionais de Saúde e à Administração Central do Sistema de Saúde, que visa corrigir todas as deficiências apontadas anteriormente, e que pode ser consultada aqui.

2. Sem-abrigo do Porto à procura de voz e visibilidade

 2Na nossa newsletter de Dezembro de 2014 já tínhamos feito referência ao movimento “Uma Vida como a Arte” constituído por pessoas sem-abrigo do Porto, na altura a propósito de uma acção que este grupo decidiu mover contra o Estado português por não cumprir direitos consagrados na Constituição, nomeadamente no que toca à saúde e à habitação.

Nos últimos tempos este movimento voltou a ser notícia. Em Julho alguns dos seus representantes foram à Assembleia da República (ver aqui), tomaram a palavra, falaram das suas experiências e dificuldades, apresentaram dados sobre o número de sem abrigo que morrem por ano na cidade, e foram escutados por alguns deputados/as e dirigentes associativos/as, num espaço de enorme simbolismo, por regra destinado a quem tem voz e poder.

Um mês depois, o movimento “Uma Vida como a Arte” voltou a surgir nos media (ver aqui), desta vez com o anúncio de uma manifestação contra a invisibilidade de quem vive na rua, fazendo coincidir a iniciativa com o arranque da campanha eleitoral para as legislativas. A sua manifestação foi simultaneamente um evento cultural, convidando artistas conhecidos que subiram ao palco montado na Praça D. João I no Porto e que deram voz à sua causa – o respeito pelos direitos humanos.

3. 48 mil pessoas comem diariamente nas Cantinas Sociais

3No passado mês de Agosto, o Instituto de Segurança Social (ver aqui e aqui) deu a conhecer o número de pessoas que diariamente come nas mais de 800 Cantinas Sociais espalhadas pelo país: são 47.826. Nelas foram servidas, durante o primeiro semestre de 2015, cerca de 8,6 milhões de refeições, número que apesar de inquietante, representa uma ligeira redução face ao mesmo período do ano anterior. Para o presidente da União das misericórdias Portuguesas, Manuel Lemos, este facto deve-se a uma ligeira diminuição da procura deste tipo de apoio nas zonas menos urbanas.

O Programa de Emergência Alimentar, uma das medidas do Programa de Emergência Social, constituiu em 2011 uma Rede Solidária de Cantinas Sociais em todo o país, assegurando que são providenciadas duas refeições diárias, de forma continuada durante todo o ano, a todas as famílias carenciadas que se dirijam às instituições de solidariedade social.

A maioria das Cantinas está localizada no distrito de Lisboa (126), seguindo-se Santarém (113), Portalegre (60), Braga (58), Leiria (47), Faro (46), Porto, Beja e Setúbal (cada uma com 42), Aveiro (41), Viseu e Coimbra (ambas com 40), Guarda (33), Vila Real (26), Viana do Castelo e Évora (ambas com 23), Castelo Branco (22) e Bragança (19), num total de 846 Cantinas Sociais referenciadas.

Seleção e redação por Paula Ferreira (Diretora do Centro)

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