Month: November 2015

Editorial

Recomeçar com ânimo

Embora Outubro tenha sido o tempo de todos os arranques (e causa do atraso de alguns dias na saída desta edição da Newsletter), o que provavelmente mais marcou o mês foi a reportagem que a RTP 1 veio cá fazer ao Centro (e que pode ser vista aqui). Um jornalista e um repórter de imagem da estação pública vieram passar toda uma manhã ao São Cirilo, filmaram salas de aula e corredores, conheceram algumas histórias de vida de nossos utentes, e “meteram-se” com outros durante os intervalos das atividades e na hora de almoço. O resultado foi uma reportagem bonita, que conseguiu apanhar o bom ambiente que aqui se vai vivendo e alguns bons frutos do trabalho que aqui se vai fazendo.

E teve graça escutar os repórteres e perceber que também eles ficaram impressionados com o que encontraram. É sempre curioso vermo-nos a nós próprios através do olhar de outros que chegam de fora. Ou sentirmo-nos (bem) avaliados pelas palavras daqueles a quem o Centro ajuda ou já ajudou. Muitas vezes, na correria do dia-a-dia, quase não há tempo para o perceber, e pode até acontecer que as dificuldades e desânimos nos levem a duvidar se vale a pena todo o esforço, se estamos realmente a trabalhar bem, ou a fazer diferença na vida das pessoas que nos procuram (e que com frequência não aproveitam as oportunidades que lhes são dadas, porque não querem ou porque não sabem).

A reportagem veio assim dar um ânimo novo à casa, e durante dias não se falava de outra coisa. São sempre boas estas oportunidades de “ver o todo”, de parar e olhar com lucidez para o caminho feito. Mesmo com a consciência que há ainda muito para crescer e melhorar, a notícia veio confirmar que o projeto parece seguir pelo bom caminho, e tornou-se oportunidade de recomeçar de forma empenhada, com alegria e confiança. Talvez todos os meses devessem assim ser “meses de (re)arranque”, em lógica de constante desacomodação. É por isso que no Centro surgem com frequência alterações nos procedimentos, se tenta tirar ensinamentos das falhas e erros, e as reuniões de equipa incluem reflexão sobre cada pessoa ajudada. Possamos cada um também viver esta “lógica dos (re)arranques” na própria vida. É uma canseira, mas vale a pena.

P. Filipe Martins sj

Breves do Centro

1. Jantar do Voluntário

Jantar do VoluntárioDecorreu, no passado dia 30 de setembro, no Centro Comunitário São Cirilo, o primeiro “Jantar do Voluntário” para os voluntários, utentes internos, de refeição e equipa. Esta atividade teve início às 18h30 com uma reunião que envolveu os diferentes voluntários que dão apoio às diversas valências do centro. Ao leme desta atividade estiveram o P. Filipe Martins e a Diretora do Centro, Paula Ferreira.

Posteriormente foi apresentada, na sala de convívio, uma pequena mostra de atividades desenvolvidas ao longo do ano 2014 -2015, organizada pela Paula Correia, responsável pela área de Animação Sociocultural. A pontuar esta mostra, um conjunto de fotografias que guardam uma memória de momentos de trabalho conjunto.

Ao final da tarde, houve um jantar volante com especialidades gastronómicas de diversas partes do mundo, trazidas pelos utentes do Centro. Um convívio agradável, fruto da dinâmica que tem sido desenvolvida por todos aqueles que, de alguma forma, partilham o espaço do Centro São Cirilo.

Inês Mendes e Pedro Teixeira

2. Noite de arranque do Centro “Vem ao teu Centro”

12108897_826658720788906_6275806880051030952_nNo passado dia 20 de Outubro de 2015 realizou-se a festa de arranque de ano do Centro São Cirilo, com o mote “Vem ao teu Centro”.

Do menu da noite constava em primeiro lugar uma missa, celebrada pelo Padre Filipe, e com vários momentos preparados pela equipa. No ofertório a equipa teve a oportunidade de demonstrar o trabalho que tem vindo a ser feito, através de vários objetos que simbolizam cada serviço prestado (alojamento, cabazes, refeições, etc…).

A missa serviu também para agudizar o apetite, visto que de seguida aconteceu um jantar-convívio com todos os presentes (voluntários, equipa técnica, utentes e convidados). Durante o jantar pode-se notar momentos de partilha e de muito entusiasmo, com a sala repleta de várias nacionalidades, o que demonstra o quanto a interculturalidade pode alimentar as relações pessoais.

Após o jantar, como serão da noite, foi apresentada uma peça de teatro surpresa, esta preparada pela Dra. Paula Correia, animadora social e que envolveu um misto de utentes (internos e externos), com o objetivo de representar o dia-a-dia do Centro. Para tal, cada utente teve que vestir uma personagem imitando cada membro da equipa técnica, e assim poder transmitir/divulgar de forma divertida o trabalho e as atividades que ocorrem no Centro.

Foi uma noite que correu bem e que é de enaltecer. Mais uma vez serviu para mostrar aos voluntários que vale a pena o esforço feito para o bem-estar dos utentes. Assim como serviu para colocar os utentes na perspetiva de técnicos, e perceberem as dificuldades que surgem durante o exercício dos trabalhos e como ultrapassá-las.

Crisanto Monteiro

3. Atividades Livres

FlyerEm Outubro o Centro deu início às actividades livres que se realizam diariamente, sendo cada dia dedicado a uma área diferente.

Às Segundas os utentes são chamados a viajar pelos países e culturas na Hora do Conto e a aprender música nas aulas de guitarra. O exercício físico e a dinâmica relacional fazem parte, às Terças, da ginástica e dos jogos desportivos e tradicionais. O mundo da imaginação e criatividade são o mote para a atividade de Expressão plástica, às Quartas, e para o workshop dos Sons, Saberes e Sabores, às Quintas, pela variedade de contextos e aprendizagens. E para acabar a semana, podemos descontrair com as danças latinas e com os jogos de mesa.

O que se pretende é contribuir para o Projeto de Vida de cada utente com a sua ocupação diária. O desenvolvimento de competências transversais, mais participação e diálogo intercultural e a integração no contexto envolvente são algumas das metas.

No desenvolvimento das actividades livres observa-se muita variedade e riqueza cultural e um grande interesse em participar, aprender e partilhar. Para tal têm contribuído, a adequação semanal das actividades a cada grupo de participantes e o vínculo familiar do Centro Comunitário São Cirilo, que revelam o caráter particular da sua intervenção.

Paula Correia

História do mês

Neste vídeo percorremos a história do Abou, um jovem aficionado pelo mundo do futebol.

Voluntariado do mês

O Programa Mentores para Migrantes é uma iniciativa promovida pelo Alto Comissariado para as Migrações. Neste vídeo acompanhamos os gestores do Programa pela parte do Centro São Cirilo.

Atenção às Margens

1. Dia Mundial da Erradicação da Pobreza e a realidade portuguesa

991636No dia 17 de Outubro assinalou-se o Dia Mundial da Erradicação da Pobreza. A pretexto desta data foram sendo publicadas notícias e relatório que mais uma vez vão dando conta da situação de Portugal no que toca à pobreza, aos grupos da população em situação de maior vulnerabilidade e à evolução deste fenómeno nos últimos anos (ver, por exemplo, aqui e aqui).

Os dados entretanto conhecidos, dizem-nos – ou continuam a lembrar-nos – que uma em cada cinco pessoas que vivem em Portugal é pobre, que a pobreza voltou a aumentar, que esta taxa é mais alta entre as pessoas que referem ter algum tipo de problemas de saúde, que o risco de pobreza é mais elevado entre as mulheres do que entre os homens, que as crianças são as mais afectadas pelo aumento da pobreza, e que as assimetrias entre quem tem maiores e menores rendimentos continuam a crescer.

Soube-se ainda que sem o contributo das prestações sociais, quase metade da população residente em Portugal viveria em situação de pobreza. É esta constatação que leva a demógrafa Maria João Valente Rosa a concluir que “As transferências têm um papel decisivo para as pessoas mais vulneráveis e, sem apoios sociais, a situação do país seria explosiva.”

2. Violência doméstica: números para pensar e agir

993015O relatório anual sobre violência doméstica relativo ao ano de 2014 recentemente divulgado pelo Ministério da Administração Interna revela que as queixas apresentadas às autoridades por violência física nas relações de namoro ultrapassam as das pessoas casadas.

Não sendo a violência no namoro um fenómeno novo, a verdade é que apenas recentemente ganhou visibilidade nas estatísticas, uma vez que as agressões entre namorados e entre ex-namorados só passaram a ser consideradas crime de violência doméstica pelo Código Penal em Fevereiro de 2013. Os dados de 2014 mostram que a maioria das queixas de violência no namoro dizem respeito a agressões físicas (89%), mas a violência psicológica é também significativa (73%); enquanto na violência entre cônjuges as agressões psicológicas reportadas à PSP e à GNR sobrepõem-se às físicas ainda que de modo não muito significativo.

Tanto no caso das agressões físicas como da violência psicológica é difícil fazer prova. 77% dos inquéritos abertos pelo Ministério Público por este tipo de crime são arquivados, quase sempre por falta de provas. Nos dois últimos anos, dos poucos casos que chegaram a julgamento, 58% resultou em condenação e 42% em absolvição. Na grande maioria das condenações (96%) a pena de prisão foi suspensa (ver notícia completa aqui). O que revela, e que é reconhecido pelas várias entidades envolvidas, que esta é uma área onde ainda há muito por fazer.

3. Transformar vidas com a poesia

985799Uma reportagem publicada no Jornal Público (ver aqui) deu a conhecer o projecto “A poesia não tem grades”, que conta já com mais de dez anos de existência, apesar da quase total falta de apoios financeiros. Esta iniciativa já levou poetas portugueses a milhares de reclusos nos vários estabelecimentos prisionais do país. Proporcionou sorrisos, risos, momentos de partilha, reflexão e aconchego a quem vive um dia a dia tantas vezes marcado pela solidão, pelo isolamento, pela falta de ocupação, e pelo medo de um futuro que se afigura incerto.

Filipe Lopes, mentor e dinamizador desta iniciativa, já leu poesia centenas de vezes por quase todo o país, em espaços tão diferentes como alas com celas de ambos os lados e por cima, salas de visitas, espaços para aulas ou bibliotecas. Afirma com convicção que: “A poesia pode salvar vidas. Todos precisamos de alguma coisa que nos eleve um pouco do chão”. É por isso que insiste em desenvolver este projecto mesmo sem apoios. Entre as mais de 300 empresas privadas portuguesas contactadas (entre elas as 100 maiores empresas portuguesas e outras tantas que praticam a responsabilidade social) todas recusaram apoio, exceptuando uma cadeia de hotéis que oferece alojamento durante as deslocações pelo país. A maioria destas empresas alegaram dificuldades orçamentais, mas algumas assumiram não querer ter o seu nome e imagem associada a este tipo de público.

Mas Filipe Lopes, através da Associação de Ideias, entidade sem fins lucrativos que entretanto criou, está decidido “a tentar mudar vidas através dos livros”. Considera que apoiar o processo de recuperação dos reclusos é “uma tarefa com benefícios para todos” e que contribui para “uma sociedade mais inclusiva e segura”.

Com o intuito de recolher verbas para este projecto, foi lançado este ano o livro O lado de dentro do lado de dentro, que reúne textos originais de autores como Afonso Cruz, Alice Vieira, André Gago ou Richard Zimler, e que pode ser encontrado nas principais livrarias do país.

Seleção e redação por Paula Ferreira (Diretora do Centro)

© 2018 Centro Comunitário São Cirilo