Month: February 2016 (page 1 of 2)

Editorial

A conversão que importa

12509814_10154423253141416_3223397655911656341_nEstamos já em tempo de Quaresma, período em que tradicionalmente o cristianismo convida à “conversão”. A esta palavra ligamos habitualmente uma mudança de hábitos a nível sobretudo individual: ser mais esforçado, cuidar melhor de uma ou várias das dimensões da vida, reduzir ou cortar com o que é negativo. Este olhar para a realidade a “partir de mim”, da minha liberdade e caminho pessoais, acaba por ser um dos grandes traços da cultura grega da qual a nossa visão do mundo é herdeira.

Mas a conversão da Quaresma, mais do que centrada no “eu”, é para ser centrada no “outro”, naquilo que ele precisa e pede, no crescimento na minha capacidade de partilhar tempo, recursos, e caminho. A cultura semita de Jesus, como na grande maioria de outras culturas antigas, reforça a dimensão do “nós”. E assim a “conversão” a que nos convida a Quaresma não é um processo puramente individual, mas uma entrega onde os demais são envolvidos, e da qual beneficiam. Não porque é “escolha” minha, mas porque é meu “dever”, o “melhor de mim” que a realidade e os outros à minha volta necessitam e a que têm direito.

Esta acaba por ser também a experiência de quem se envolve na vida do Centro, como mostram os vídeos e os textos abaixo. A Nazanine, voluntária que vem semanalmente partilhar almoço e conversa com quem anda por cá, refere que “ser voluntária é ser solidária”, e que foi assim que descobriu os “benefícios da partilha”. E o João, frequentador do Centro, fala na dimensão de “família” que o Centro se tornou para ele, e de como isso lhe alimenta a esperança e a sua própria capacidade de entrega. De muitas mais ajudas e entregas vive e se alimenta esta casa, sejam elas de voluntários, doadores ou utentes. Todos convidados a “dar”, e assim todos alimentados e enriquecidos pelo comum e partilhado “receber”. Esta é a conversão que permanece e que mais importa, fonte de sentido e de alegria para a vida. Boa (conversão de) Quaresma para todos!

 P. Filipe sj

Breves do Centro

1. Formação “Saúde e prevenção”

Saúde e prevençãoNo dia 10 de Fevereiro o Vox Pop da Saúde chegou ao Centro Comunitário São Cirilo e, dessa forma, atravessou fronteiras, chegou ao Brasil, a Angola, à Venezuela e mesmo à Ucrânia… e isto acontece porque o cancro é mesmo assim, não escolhe nacionalidades ou etnias, idades ou sexos e, por isso, todos devemos estar informados.

A conversa foi fluindo, refletindo as vivências pessoais de cada um, e as dúvidas foram sendo esclarecidas com recurso ao vídeo “Vox Pop da Saúde”.

A ponte para a vida e o impacto futuro desta ação foi também referido… mais esclarecidos estamos em condições de fazer opções mais conscientes, tendo noção que o equilíbrio é chave para uma vida mais duradoura e com mais saúde!

 Cristiana Fonseca
(formadora)

 2. Visita à Exposição “A Felicidade em Júlio Pomar”

12645127_875616825893095_4864474987678222986_nNo dia 2 de Fevereiro foi o nosso dia de desporto com cultura. Fizemos uma caminhada para uma visita guiada à exposição do grande pintor Júlio Pomar que se chama “A Felicidade em Júlio Pomar” nas Galerias da Biblioteca Municipal Almeida Garrett.

O trabalho artístico de Júlio Pomar lembrou-me o meu país: Guiné – Bissau. O pintor expressava o que pensava e sentia através da arte, uma vez que, na época do antigo regime não havia liberdade de expressão e as consequências de falar eram a prisão ou a morte, tal como no meu país.

Nesta visita achei interessantes três coisas. Uma, foi a predominância das cores amarelo e verde. Outra foi, o aproveitamento da cultura local dos sítios por onde Júlio Pomar passou e a sua transformação em arte. Foi visível nas suas obras. Por último, foi ter retratado a natureza dos índios, após o seu contato com os mesmos na viagem que fez ao Brasil.

Se tivéssemos feito a visita sem guia, teríamos, após a leitura das legendas de cada quadro, interpretado à nossa maneira. Mas a visita guiada permitiu um maior aprofundamento cultural através da troca/partilha da experiência cultural da guia, Drª Graça Lacerda. Depois desta visita comecei a pensar que seria importante alargar a outras áreas.

 Cipriano José So
(participante)

 3. Re-arranque das aulas de Alfabetização

6A alfabetização ou literacia consiste, em termos genéricos, na apropriação dos símbolos da escrita e na sua utilização como código de comunicação. Ensinar a ler/escrever é extremamente aliciante mas também uma tarefa difícil, quando nos deparamos com adultos que nunca frequentaram a escola ou cuja escolaridade é muito reduzida.

Inicialmente, a estratégia adotada nas aulas de alfabetização no Centro consistia num trabalho conjunto de alfabetização, dado que a maior parte dos voluntários nunca deram aulas e nenhum trabalhou especificamente no 1º ciclo.

Atualmente e para uma melhor rentabilidade destas aulas, os alunos foram divididos por graus de dificuldade, sendo acompanhados por pares de professores que articulam entre eles. Desta forma, é possível fazer-se um trabalho mais individualizado, respeitando os diferentes ritmos de aprendizagem e utilizando os métodos mais adequados a cada aluno, quer na abordagem à leitura, quer à escrita.

Desde a coordenação inicial e respectiva reformulação, procuro fomentar a articulação e comunicação entre todos, visando uma maior eficácia em todo o trabalho desenvolvido.

 Helena Gonçalves
(coordenadora das aulas de Alfabetização)

História do Mês

“…saber amar e ser amado foi uma experiência fantástica…”

Neste mês, ficamos a conhecer a história do João Duarte, um homem que sabe reconhecer os seus erros e perceber como crescer com eles.

Voluntariado do Mês

“…no momento certo, ter uma pessoa certa na nossa vida, pode ser tudo o que precisamos…”

No vídeo sobre o voluntariado, a nossa voluntária Nazanin Bidabadi dá o seu testemunho de como se sente movida a ajudar o próximo e como vê o mundo.

Atenção às Margens

1. As famílias e a crise económica em Portugal: o impacto das prestações sociais

1Entre 2010 e 2015 apertaram os critérios de acesso ao rendimento social de inserção (RSI), ao abono de família, ao subsídio social de desemprego, ao complemento solidário para idosos (CSI), o que teve como consequência a redução drástica do número de beneficiários destas prestações. De acordo com o estudo publicado no início deste ano pelo Eurofound intitulado As famílias e a crise económica: alterações às medidas políticas na EU (relatório completo aqui e sumário executivo em português aqui) estas medidas tiveram um impacto negativo nos indicadores de pobreza, privação, intensidade laboral e abandono escolar em Portugal.

Os números são expressivos: em 2010, 1.844.558 crianças recebiam abono, em Dezembro de 2015 eram 1.119.222; beneficiários de RSI eram 526.013 em 2010 e 209.390 em Dezembro de 2015; o complemento solidário para idosos abrangia 246.664 pessoas em 2010 e no final de 2015 apenas 166.174. Para Karin Wall, coordenadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, que co-assina este relatório, o recuo nas medidas de apoio económico às famílias afetou não só as classes média e média baixa, mas também os agregados pobres e muito pobres, com um impacto particularmente negativo nas crianças (ver notícia aqui).

O novo Governo resolveu repor alguns valores de apoio às famílias mais carenciadas, mas este estudo recomenda que se vá mais além e se adopte uma política integrada para a família – recomendação válida para toda a Europa – que contemple, por exemplo, medidas que permitam conciliar as responsabilidades de assistência à família com a vida profissional, a prestação de serviços adequados de acolhimento às crianças, ou a simplificação da informação e do acesso às prestações sociais e aos programas de apoio. O relatório sublinha também a importância de garantir um rendimento mínimo às famílias desfavorecidas e refere que, em Portugal, o RSI é visto como o mais importante apoio social, mas pode já nem preencher este papel, por causa dos cortes que sofreu e por ter sido excluída muita gente do conjunto de beneficiários.

2. Nova lei combate o desperdício alimentar em França

2O Senado francês aprovou por unanimidade uma lei que combate o desperdício, obrigando os supermercados a doar os produtos alimentares em final de prazo e em boas condições a instituições de solidariedade e aos bancos alimentares (ver notícia aqui e aqui). Com a implementação desta lei, prevê-se um aumento muito substancial do número de refeições servidas à população mais desfavorecida. De acordo com o responsável pelos Bancos Alimentares de França, esta medida poderá também possibilitar uma melhoria na qualidade e diversidade da comida e distribuída, bem como suprir alguns défices nutricionais decorrentes da falta de produtos como carne, fruta e vegetais.

A nova legislação obriga os supermercados com área superior a 400 metros quadrados a celebrarem contratos com instituições de solidariedade, incorrendo em multas até 75 mil euros ou mesmo pena de prisão até dois anos para os seus responsáveis, caso não o façam. Mas impõe também regras acrescidas às organizações de solidariedade social, obrigando-as a recolher e armazenar a comida em condições devidas e a distribui-la de forma “digna”, ou seja, num banco ou centro alimentar e não na rua.

Esta decisão resulta de uma campanha levada a cabo por activista e lojistas e iniciada pelo conselheiro municipal da comuna de Courbevoie, Arash Derambarsh. O próximo passo será pressionar para que a medida seja alargada a toda a União Europeia e para que se combata o desperdício alimentar noutros espaços, como por exemplo, restaurantes, padarias, cantinas escolares e cantinas de empresas.

3. Será Portugal um bom país para trabalhar?

Portugal está longe de ocupar os primeiros lugares na lista dos melhores países para trabalhar, de acordo com os dados publicados recentemente pela OCDE – Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (ver dados aqui e notícia publicada aqui). Dos 34 países considerados, Portugal é o terceiro onde os trabalhadores correm maior risco de ficarem desempregados e por mais tempo. O nosso mercado de trabalho é o quarto mais inseguro e 46% dos trabalhadores estão sujeitos a condições de desgaste e mau ambiente no emprego. A juntar a estes dados, registámos um dos piores agravamentos do apoio económico dado a quem fica desempregado.

Para este cenário pouco animador contribuiu o aumento rápido e acentuado do desemprego, que de acordo com a OCDE fez com que a qualidade dos ganhos estagnasse e a segurança no mercado de trabalho caísse. O risco de desemprego em Portugal é de 17,1%, apenas superado pela Grécia e Espanha. Por outro lado, a precariedade que caracteriza o nosso mercado de trabalho, com grande proporção de contratos a prazo, recibos verdes e trabalho temporário, torna as pessoas mais vulneráveis a situações de desemprego. Em relação ao indicador “desgaste no trabalho” que tem em conta o ambiente no qual as pessoas trabalham, apesar de Portugal estar também mal cotado, registou-se uma melhoria nos últimos anos, que de acordo com uma representante da OCDE se deve ao facto de os piores postos de trabalho terem sido entretanto destruídos pela crise.

Analisados estes indicadores, o estudo conclui que os melhores países para trabalhar são a Austrália, a Áustria, a Dinamarca, a Finlândia, a Alemanha, o Luxemburgo, a Noruega e a Suíça. Na lista dos piores está Portugal, a Estónia, a Grécia, a Hungria, a Itália, a Polónia, a Eslováquia, a Espanha e a Turquia.

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