Month: March 2016

Editorial

Em passagem

Celebrámos há poucos dias a festa da Páscoa. A palavra “páscoa” vem do hebraico “pesah”, que significa “passagem”. Ainda hoje, ao começo da ceia pascal que cada família judaica invariavelmente celebra onde quer que esteja, a tradição manda que o mais novo à mesa se levante, e pergunte ao mais velho “que estamos aqui reunidos a celebrar?”. E este, também solenemente de pé, explica que “Páscoa” é a memória da passagem do povo hebraico através do Mar Vermelho, fugindo do Egipto, terra da escravidão e do medo, para Israel, a terra da liberdade e da promessa de vida.

Tem por isso graça que os vários textos desta Newsletter sobre eventos na casa voltem a acertar com o tempo que vivemos, e falem de passagem e de mudança. Foi o workshop “Vidas Ubuntu”, no início do mês, que levou a que pessoas pouco habituadas a partilhar, conseguissem contar a história e fazer um vídeo das suas vidas. Foi a vinda de um par de animadores da Casa da Música ao Centro que transformou um conjunto de pessoas pouco habituados à música, num coro de vozes e ritmos acertados. Foi finalmente a Festa da Páscoa da semana passada, e os seus vários momentos, a gerar um sentimento de comunhão tão simples e “normal” entre todos, que facilmente nos podemos esquecer que éramos mais de 100 pessoas, entre utentes, voluntários, amigos e equipa, de 22 países diferentes!

Esta acaba por ser mais uma das marcas deste Centro, ser “casa que permite a passagem”. Nele temos tido o privilégio de assistir a pessoas que “passam” do desânimo e do isolamento desconfiado, à esperança e à abertura aos outros. Ou a quem, vindo de uma falta de recursos quase absoluta, “passa” para a segurança de um emprego minimamente estável. E não há passagem que não fique completa se, uma vez do lado da liberdade, a pessoa não se torna ela mesma “ajudadora” de outros a fazer as suas passagens. Como dizia uma vez uma voluntária ao utente que ajudou, “a melhor forma de me agradeceres é agora ajudares alguém quando tenhas oportunidade”. Vidas e corações agradecidos e disponíveis, esse é de facto o grande fruto da Páscoa. Que continue a ser, nestas semanas e pela vida fora, um bom “tempo de passagem” para todos!

P. Filipe sj

Breves do Centro

1. Formação Vidas UBUNTU

1916479_898135473641230_3641681709329709617_nO projeto Vidas Ubuntu, um programa de apresentação de histórias de vida, contadas na primeira pessoa através da metodologia do Personal Storytelling, esteve durante os dias 8, 9, 10 e 14 de Março no Centro Comunitário São Cirilo, a desenvolver um workshop com dez utentes.

Foram dias intensos de muita entrega e dedicação, onde todos os participantes partilharam a sua história de vida com todo o grupo, e juntos percorreram uma caminhada de aprendizagens que os tornaram próximos e íntimos, numa relação de interdependência comunitária, onde o conhecer o outro nos responsabiliza sobre ele.

Ao longo destas sessões falou-se de medos, alegrias, pessoas, dificuldades, da infância, do amor e da mágoa, de partidas e chegadas, mas acima de tudo, falou-se da mudança constante que é a nossa vida e o quão importante é partilhá-la. Isto viu-se refletido nos vídeos finais que cada participante concretizou, e no orgulho que cada um sentiu ao perceber que mesmo com muitas dificuldades, é possível.

Foi igualmente especial a forma como nos sentimos em casa. A equipa técnica que nos acolheu e que nos acompanhou foi como um espelho do encontro que transparece da filosofia Ubuntu que procuramos transmitir com o projeto.

Um enorme obrigada a todos os participantes e à equipa do São Cirilo, nomeadamente à psicóloga Rita Santos que acompanhou todo o processo. Afinal, juntos acreditamos que “a nossa história pode mudar a forma como vemos o mundo”!

 Ana Pires

(formadora)

2. Festa da Páscoa

12814026_895360003918777_7035583859203895287_nNo dia 16 de Março realizou-se no Centro a Festa da Páscoa, que este ano se juntou ao momento da entrega dos diplomas relativos às actividades do último trimestre. Além da distribuição dos diplomas, houve uma apresentação surpresa por parte dos alunos de inglês. Esta constou de uma leitura encenada em inglês e português do conto “The Giving Tree” de Shel Silverstein, uma representação do ideal de amor incondicional.

Seguiu-se o lanche partilhado para o qual todos, equipa técnica, utentes e voluntários, contribuíram. Constituiu um momento especial de partilha e encontro, de estreitar laços e trocar experiências.

O momento alto da Festa da Páscoa, foi a Missa. Especialmente significante para mim foi a forma como as pessoas de outras nacionalidades e credos presentes foram integradas na Celebração, sendo convidadas a assinalar o seu país de origem no mapa mundo e a perceber os momentos mais especiais da Celebração. No final, todos lemos em voz alta uma intenção para a nossa Páscoa. Na forma de certificado,  prometemos acreditar mais, ouvir mais, sorrir mais.

Sofia Soares

(voluntária)

3. A Casa (da Música) vem a Casa

12063819_905664466221664_3402535503478198996_nNo dia 17 de Março realizou-se a primeira sessão do Projeto “A Casa vai a Casa”. A Casa da Música deslocou-se ao Centro para uma actividade musical. Foi a primeira vez que participei neste tipo de actividade.

Aprende-se sempre com o que é novo. Cantámos canções portuguesas e ouvimos canções de outros países (México, Ucrânia, Rússia e Guiné-Bissau).

Foi uma experiência muito divertida. Mas era necessário muita concentração para acompanhar os ritmos. Houve um momento, que tínhamos de acertar as vozes e os ritmos, que não foi fácil para mim, mas consegui com a ajuda de todos.

Por termos sido um grupo grande, de vários países e com línguas diferentes, levou-nos a uma maior união e mais atenção às canções de cada país. Acrescentar ritmos ou com as mãos ou com pequenos instrumentos mudou logo a forma de cantar e acompanhar.

Já estou à espera da próxima sessão que é já em Abril.

Abílio Botelho

(utente)

História do Mês

“…perceber que eu podia dar uma oportunidade a mim mesma novamente, que a vida não estava perdida ainda, que eu podia voltar a ser quem eu era…”

Neste mês, ficamos a conhecer a história da Tatiane, uma mulher que reconhece que ainda há esperança e caminho a ser feito todos os dias.

Voluntariado do Mês

 “…aprende-se muito, em primeiro lugar a humildade… de não ter a verdade toda na minha mão nas coisas mais simples ou nas coisas maiores…”

No vídeo sobre o voluntariado, a nossa voluntária Débora Duarte mostra-nos o entusiasmo que sente ao ajudar com o “pouco” que consegue os nosso utentes.

Atenção às Margens

1. A importância das palavras

1Pais, mães e encarregados de educação têm vindo a queixar-se de conteúdos racistas e discriminatórios nos manuais e materiais escolares do ensino básico. Lenga-lengas que falam do “preto da Guiné”, versos supostamente humorísticos e nonsense mas que apontam “diferenças” de forma depreciativa ou descrevem comportamentos que contrariam os princípios da igualdade e inclusão. É o caso deste poema onde se pode ler: “X é o Xavier, usa roupa de mulher/ C é a Camila com corpinho de gorila/ G é o Gonçalo, já hoje levou um estalo/ I é a Inês, a dar beijos num chinês”.

Um artigo recentemente publicado por um jornal nacional (ver aqui) dá conta desta realidade e mostra como encarregados de educação e mesmo as próprias crianças – sobretudo quando os conteúdos discriminatórios as atingem directamente – vão estando mais atentos à importância da linguagem e ao impacto que ela tem na construção de percepções e comportamentos.

Associações como o SOS Racismo têm também recebido queixas sobre materiais curriculares e pedagógicos de teor racista e colonialista. Um responsável desta associação lembra que “a permanente fixação sobre as particularidades fenotípicas e culturais das comunidades ciganas e negras nos manuais, na produção de saberes sobre elas, e a forma como são representadas são estruturantes do racismo neste país e revelam quão estrutural é a ciganofobia e negrofobia na nossa sociedade”.

Interpelado sobre este assunto, o Ministério da Educação afirma que as listas de leituras recomendadas são actualizadas regularmente com contributo de várias entidades e considera que os materiais didácticos devem ser usados como recurso de promoção da cidadania e igualdade e é nesse sentido que tem vindo a desenvolver um trabalho conjunto com a Secretaria de Estado para a Cidadania e Igualdade.

2. Novas formas de pobreza atingem quem trabalha

2A Cáritas Europeia, num relatório sobre a situação em Portugal, realça as novas formas de pobreza e desmonta o discurso que associa a diminuição do desemprego à melhoria das condições de vida das pessoas (ver relatório aqui)

Estas novas formas de pobreza estão relacionadas com a precariedade laboral, os baixos salários e o desemprego de longa duração – fenómenos que de acordo com o Secretário-Geral da Cáritas, Jorge Nuño Mayer, já existiam no nosso país mas estão a aumentar muito rapidamente. Por isso, fala da “armadilha da pobreza” em que facilmente podem cair as pessoas da classe média desempregadas há mais de cinco anos, quem trabalha mas aufere salários baixos e jovens de zonas rurais onde as perspectivas de futuro são reduzidas ou nulas (ver entrevista aqui).

Jorge Nuño Mayer alerta para o discurso político que refere que mais pessoas voltaram a trabalhar e diz que é preciso ver em que condições o fizeram. Muitas trabalham, mas não ganham o suficiente para ter uma vida digna. Afirma que “uma pessoa que recebe 400 euros vive na pobreza. Talvez consiga pagar a renda da casa, mas não lhe sobra dinheiro para pagar os livros escolares dos filhos, por exemplo, ou o custo para uma visita de estudo organizada pela escola”. Estas situações criadas pela falta de rendimento empurram as famílias para situações de exclusão social.

O relatório da Cáritas Europeia retoma dados que já eram conhecidos sobre a situação portuguesa. Lembra, por exemplo, que a pobreza dos trabalhadores aumentou de 9,7% para 10,5% entre 2010 e 2013; que mais de 42% das pessoas desempregadas não conseguiam, em 2013, assegurar o pagamento imediato de bens necessários; ou que o número de casais desempregados aumentou de 1530 para 12.065, entre 2010 e 2013, fazendo aumentar o risco de pobreza em particular o das crianças.

 3. Mazi Mas – reconhecer e valorizar o trabalho das mulheres migrantes e refugiadas

3Decorreu neste mês de Março em Lisboa a conferência Women of Wisdom, sobre mulheres empreendedoras e liderança, que contou com a participação, entre outras, de Nikandre Kopcke, convidada por causa do seu projecto Mazí Mas — “connosco”, em grego (ver a entrevista aqui). Nikandre inspirou-se na experiência da sua ama, uma emigrante grega que na década de 60 se viu obrigada a fugir para os EUA, mas também na realidade actual de milhares de mulheres migrantes e refugiadas que foi conhecendo em Londres enquanto fazia voluntariado. Para estas mulheres a oportunidades de trabalho são poucas – porque não falam bem a língua, porque têm baixas habilitações escolares, porque não têm uma experiência laboral recente e porque há uma discriminação activa, sobretudo em relação a mulheres com filhas.

Mas Nikandre Kopcke não aceita que se diga a uma mulher que sabe cozinhar, tratar da casa e cuidar de crianças, que não tem habilitações para trabalhar. Por isso criou o projecto Mazi Mas, que nasceu para atribuir um valor ao trabalho não reconhecido, colocando mulheres refugiadas a cozinhar, mas num restaurante. Porque, como afirma, estas mulheres “têm imensas habilitações, mas não aquelas que são reconhecidas e valorizadas”.

E desta constatação surgiu um restaurante pop-up, situado no centro de Londres, onde estas chefs oriundas de diferentes países, usam os seus saberes e cozinham aquilo que fariam em casa, sendo que ao mesmo tempo aprendem como funciona o negócio da restauração para, mais tarde, poderem montar o seu próprio negócio. As novas cozinheiras são acompanhadas por chefs experientes com quem aprendem a construir um menu, a fazer a apresentação dos pratos, a seleccionar os mais adequados e aprendem também tudo sobre segurança alimentar. É igualmente dada formação a quem queira montar o seu próprio negócio. Para conhecer melhor este projecto inspirador vale a pena visitar o website oficial aqui.

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