Month: April 2016

Editorial

Horizonte e caminho

O editorial é tipicamente a última parte da newsletter a ser feita, já depois de todos os artigos e vídeos estarem concluídos. É neles que muitas vezes estas linhas são inspiradas. E nesta edição os dois vídeos destacam-se e ligam-se de forma curiosa, apontando com clareza o norte e o caminho certo que buscamos para a missão do Centro.

Diz o Sr. Domingos, na história do mês e com as suas palavras simples e diretas, que se vê como um lutador, honesto e com gosto pelo trabalho. E que não se pode queixar de nada do que lhe tenha acontecido, pois tudo tem sido fruto das suas escolhas e ações. São palavras inspiradoras, quando tantas vezes e tanta gente (e nós mesmos?!) acabamos por cair na tentação da queixa, de culpar tudo e todos – menos nós próprios! – pelas dificuldades e circunstâncias da vida. Este é um dos horizontes desta casa, ajudar cada um a perceber e a acreditar (integrando e ultrapassando mágoas e desaires) que parte significativa do seu futuro está nas suas mãos, com empenho e (auto)confiança.

Quanto à Nídia e Sara, ambas voluntárias em medicina chinesa, falam por sua vez da forma certa de fazer este caminho, ambas apontando a direção do “dar” gratuito ao outro (em vez da preocupação autocentrada com o “receber”). Falam também da alegria de perceber como a entrega ao outro acaba sempre por fazer acontecer a mudança, mudança do outro e também em nós próprios. Alguém dizia há pouco que ouve falar cada vez mais em “casa” aqui no Centro. E a “casa” é isto, a construção comum feita lado a lado, caminho de vida onde se partilham alegrias e dificuldades, e se cresce em conjunto. Queres uma vida com sentido? Então (pre)ocupa-te com a vida de quem está ao teu lado, e esse sentido e alegria emergirão sem demora.

Que nesta “casa São Cirilo” continuemos, utentes, voluntários, amigos e leitores, nesta ajuda e desafio mútuos de manter e crescer no horizonte e no caminho certos. Obrigado por fazer parte deste projeto, seguimos para a frente!

P. Filipe Martins sj

Breves do Centro

1. Almoço temático da Guiné

12512649_925992824188828_9150503289716583133_nNo dia 20 de Abril realizou-se no nosso Centro, mais um almoço temático. Desta vez a escolha do país ficou a cargo da Guiné-Bissau. O almoço foi preparado com afinco por várias pessoas oriundas deste país, mais concretamente a nossa utente Deusa, bem a nossa funcionária Aida, que prepararam para nós um prato típico chamado “Caldo de Mancara”, prato esse muito saboroso.

Durante toda a manhã procedeu-se à decoração do Centro, que se encheu de vida com as cores bem alegres, típicas do vestuário da Guiné, bem como à música que a todos fez dançar e divertir.

Como funcionária do Centro, penso que estas iniciativas são deveras importantes, pois permitem uma maior interacção entre os utentes e toda a equipa técnica e voluntários.

Patrícia Moutinho (Cozinheira)

2. Formação “Gestão do Tempo”

Após a sessão de formação sobre “Gestão do Tempo” sinto que aprendi bastante e estou grata por isso pois coincidiu com o momento em que ia começar um novo trabalho. Como resultado destas aprendizagens consegui construir um plano de trabalho que se tem revelado eficiente, uma vez que consigo começar e terminar as minhas tarefas dentro do horário definido e cumpro tudo o que me é solicitado.

Desejo sinceramente agradecer-vos  pela informação pois tem produzido frutos. Até o meu patrão tem comentado que sou muito organizada e consigo gerir o meu tempo muito bem. Obrigada e espero poder ter mais sessões, quando a minha disponibilidade o permitir, sobre temas que me permitam melhorar e crescer.

Obrigada.

Virginia Njuguna (utente)

3. Re-arranque das actividades livres

12109039_823186541136124_5479977703903964683_nQuando me foi proposto dar a aula de Ginástica/Desporto, ao início a ideia assustou-me um pouco. Simplesmente pelo fato de não saber o que esperar da reacção das pessoas. Mas esse pensamento logo se desvaneceu quando me foram apresentados o João e a Masha. Dois sorrisos de orelha a orelha, uma abertura e um à-vontade tão grande, que tornaram a minha tarefa muito mais fácil.
Passados poucos minutos do início da sessão, já estavam todos de língua de fora (incluindo a Paula Correia, a animadora do Centro, que fez questão de participar) e entoavam gargalhadas que se devem ter ouvido por todo o Centro.
Face a estas respostas tão positivas, o meu objetivo estava a ser concretizado. Proporcionar ao grupo momentos de diversão e descontracção, aliados à prática da atividade física.
A verdade é que este intercâmbio de experiências, me está a dar a oportunidade de conhecer um “mundo” que desconheço, entre outras culturas, o que tem sido uma boa oportunidade para mim, de crescer como pessoa e valorizar a sociedade onde estou inserida.
Só tenho de agradecer pela oportunidade e pela confiança em mim depositada.

Raquel Domingues (voluntária)

História do Mês

“…fui adulto demasiado cedo, aos 14 anos já trabalhava e já ganhava para a casa…”

Neste mês, ficamos a conhecer a história do Sr. Domingos, um homem que olha para a sua história com esperança e um sorriso.

Voluntariado do Mês

Nídia – “…move-me as pessoas, estar atento a elas. Move-me Deus neste amor ao outro, neste cuidar do outro…”

Sara – “…aprende-se uma coisa essencial que é a mudança, que é possível e aprende-se a acreditar nisso…”

No vídeo sobre o voluntariado, a Nídia e a Sara, ambas voluntárias em medicina chinesa, falam do caminho, da mudança e da beleza que é estar ao serviço do outro.

Atenção às Margens

1. Aumentam as desigualdades entre as crianças 

CapturarO relatório da UNICEF Equidade para as crianças: uma tabela classificativa das desigualdades no bem-estar das crianças nos países ricos, dado a conhecer este mês, classifica 41 países da UE e da OCDE segundo o fosso que separa as crianças mais desfavorecidas da “criança média” em cada país (ver relatório aqui e síntese em português aqui). O relatório analisa as disparidades em quatro dimensões: rendimento, desempenho escolar, problemas de saúde e satisfação com a vida reportados pelas próprias crianças.

Ao nível da disparidade de rendimentos, a situação em Portugal agravou-se nos últimos anos. Somos o 33.º país mais desigual do ranking. Os dados revelam que o rendimento de uma criança de um agregado pobre é 60,17% inferior ao de uma “criança média”. Na tabela que mede as disparidades na educação, Portugal aparece em 19.º lugar entre 37 países para os quais há dados. Apesar de algumas melhorias, os alunos de famílias com estatuto socioeconómico mais baixo apresentam 12% mais probabilidade de não atingir os níveis mínimos de competências nas áreas da Matemática, Leitura e Ciências do que os seus pares de meios mais privilegiados. Já no que diz respeito aos problemas se saúde sinalizados pelas crianças Portugal destaca-se pela positiva, situando-se no 7.º lugar num conjunto de 35 países. No que toca ao fosso entre a média e as crianças menos satisfeitas com a vida, o nosso país ocupa o 18.º lugar.

Há ainda uma outra desigualdade que persiste e que a UNICEF assinala como sendo transversal a todos os países – a desigualdade de género. Este estudo mostra, por exemplo, que em todos os países as raparigas têm maior probabilidade de ficar para trás relativamente à saúde e também revelam um nível de satisfação com a vida inferior ao dos rapazes.

No ranking geral das desigualdades entre as crianças, a Dinamarca está no topo da tabela e Israel está em último lugar em todos as áreas. Portugal fica a meio da lista, no 19.º lugar (ver notícia aqui).

2. Já não há fome em Portugal?

mw-860Contrariando a ideia de que já não há fome em Portugal, uma das conclusões do inquérito anual InfoFamília referente a 2014, conduzido pela Direcção-Geral de Saúde, revela que existem famílias que enfrentam carências alimentares – 16,1% famílias inquiridas. A situação de falta de alimentos atinge em primeiro lugar as pessoas adultas do agregado, mas já vai também afectando um número significativo de crianças.
Em termos geográficos, os casos mais graves ocorrem no Algarve e na região de Lisboa e Vale do Tejo, facto que, de acordo com uma das responsáveis pelo estudo, se explica pelas elevadas taxas de desemprego nestas regiões, pela maior prevalência de famílias monoparentais e também por uma presença mais elevada de população imigrante, considerada um dos grupos vulneráveis à insegurança alimentar, por possuir uma rede de suporte social e familiar mais frágil.
Monica Truninger, socióloga no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, que tem estudado as questões da pobreza e insegurança alimentar, destaca o papel de “almofada de apoio” que as instituições e escolas têm prestado a estas famílias, mas considera que é preciso mais. É preciso uma relação articulada e sinergética entre o Estado, o mercado e a sociedade civil para encontrar soluções duradouras e eficazes para este problema social. (Ver notícia na íntegra aqui)

3. Opré Chavalé – “Erguei-vos jovens” contra a discriminação

197No mês em que se comemora o Dia internacional do Cigano (8 de Abril) vale a pena conhecer o projeto Opré Chavalé – “Erguei-vos jovens” em romani (saiba mais aqui). Promovido pela Plataforma Portuguesa para os Direitos das Mulheres, em parceria com a associação Letras Nómadas, esta iniciativa inovadora visa a integração das comunidades ciganas no ensino superior. A ideia é quebrar as barreiras que separam estas comunidades do sistema de educação formal, particularmente no que diz respeito ao acesso ao ensino superior, cursos académicos e técnicos.
E isto consegue-se, entre outras medidas, com mentoria, mediação, apoio nos diferentes procedimentos e acesso a bolsas de estudo. Pretende-se também que o grupo piloto que integra este projecto contribua, através do seu exemplo, para a sensibilização da comunidade.
A propósito deste projeto e do Dia Internacional do Cigano, o Jornal Expresso publicou uma reportagem em que dá a conhecer a história de alguns destes rapazes e raparigas, jovens e menos jovens, que estão hoje na universidade, contrariando aquele que seria o percurso “normal” e esperado de alguém que nasceu e cresceu numa comunidade cigana. Mas para todos é ponto de honra que esta experiência não implica assimilação ou perda daquilo que consideram ser as suas raízes. A este propósito vale a pena citar as palavras de Teresa Vieira, 26 anos, estudante de Sociologia no ISCTE graças ao projeto Opré Chavalé, que reconhece que a tradição está a mudar e que já não é possível sobreviver das feiras, mas assume que nunca vai perder as suas raízes e afirma: “temos de proteger aquilo que somos e de onde viemos” (ver a reportagem aqui).

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