Mês: Maio 2016

Editorial

O “cansaço bom” de final de ano

Com o final do ano já a aproximar-se, é natural começar a aparecer o cansaço acumulado ao longo de todos estes meses. As férias do ano anterior são já recordação longínqua (quem se lembra ainda de onde esteve nas férias passadas =) ?), e anima-nos o pensamento de que já não faltará muito para novo tempo de descanso.

Tem graça pensar que, em muitos casos, este é um cansaço que resulta da dedicação continuada ao trabalho e à família, a um voluntariado ou alguma outra situação que pede entrega. Quantas vezes gostaríamos que as coisas acontecessem rapidamente, seja a educação de um filho ou a conclusão de um trabalho, mesmo que tal pedisse um esforço momentâneo e forte. Mas a vida vai-nos ensinando que, na grande maioria das vezes, as mudanças precisam de um “tempo longo” para se realizarem. E o fruto dessa entrega acaba muitas vezes por ser, não resultados que se vejam rapidamente, mas o próprio cansaço (bom!) da entrega, a consciência alegre da fidelidade à missão que a cada um é pedida.

É também isto que nestas semanas vamos sentindo no Centro, com as pessoas a quem, dia após dia e mês após mês, tentamos ajudar e ao lado de quem caminhamos. Há momentos saborosos de resultados rápidos e visíveis, no acompanhamento de cada Projeto de Vida. E há momentos difíceis e de dúvida, quando parecem tardar os avanços e o crescimento. O “tempo longo” é de facto o tempo necessário para a mudança que permanece, e a essa fidelidade constante somos chamados. Vá sendo bom final de ano para cada um e uma, seguimos unidos na entrega alegre e cansada à construção do mundo melhor!

 P. Filipe sj

Breves do Centro

1. Formação Objectivos Pessoais

OPNo dia 27 de Abril realizou-se mais uma formação no nosso Centro. Desta feita, sobre Objectivos Pessoais e foi destinada aos nossos utentes internos, de refeição e de cabaz. Pretendíamos sensibilizar os utentes para a necessidade de estabelecer prioridades tanto ao nível pessoal como profissional. Foram para isso utilizados diversos meios e dinâmicas para cativar a atenção dos participantes.

Houve adesão e interesse numa sessão com contributos muito pertinentes por parte dos utentes. Percebendo a pertinência do tema, sentimos que se devia dar continuidade a este tipo de matéria, que são gerais, mas ao mesmo tempo muito ligadas ao dia a dia de cada um.

A título último e pessoal, foi desafiante e enriquecedor pois é nestes momentos que percebemos a nossa necessidade de crescer para ajudar a colmatar as necessidades do nosso público.

Maria José Lino (técnica de emprego)

 2. II Assembleia Social dos Jesuítas em Portugal

Dia2 - tarde (23)

Com alguma surpresa, pois a minha vivência do Centro, enquanto voluntário, é ainda muito curta, fui convidado a participar da Assembleia Social 2016 do sector social dos jesuítas em Portugal, que se realizou no final do passado mês de Abril, em Almada.

Por força dessa mesma falta de conhecimento das obras e movimentos que compõe o sector, a minha participação foi algo limitada, em termos de contributos para a discussão do tema central da Assembleia (o planeamento estratégico do setor). Mas pude assistir a um conjunto de intervenções, quer ao nível dos grupos de trabalho quer de plenários, globalmente participadas e cheias de vitalidade, demonstrativas do interesse dos diversos participantes.

Pontos para mim altamente positivos deste encontro foram também a quantidade e qualidade dos seus participantes, maioritariamente jovens, a segura organização e uma serena condução do seu desenrolar, bem como o facto de todos trocarem ideias e experiências sem um querer de individualização e de dar preponderância à sua própria organização, mas sim integrando-as numa perspectiva de procura do bem comum e daqueles a quem queremos servir.

De entre os vários intervenientes destacaria, finalmente, o P. José Ignacio García, coordenador do setor social dos jesuítas a nível europeu, um bom e claro comunicador com ideias muito precisas e arrumadas sobre o muito que a nível social cada um de nós pode fazer, sobretudo nestes tempos de crise económica e de chegada de refugiados. Foi tema que, só por si, já fez valer a pena a vinda à Assembleia Social!

Alfredo Vasconcelos (voluntário)

 3. Workshop de Fotografia – utente

_DSC0030Nos dia 17 e 24 de Maio foi dinamizado pela voluntária Sofia Soares um workshop de técnica tradicional para tirar fotografias, o Pinhole em papel fotográfico.

No primeiro dia aprendemos a teoria (cuidados a ter quando se tirar fotografias, o tipo de fotografia que é possível de tirar com a Pinhole, o enquadramento…) e construímos a câmara de orifício (Pinhole).

Apesar de eu não falar português, foi uma oportunidade de praticar e ao mesmo tempo, conhecer uma nova forma de tirar fotografias, muito diferente do digital.

Para mim foi importante participar, ocupo o meu tempo, é uma oportunidade para estar com outras pessoas e como este tipo de actividade é gratuita pude vir.

Nandor Simon (utente dos Países Baixos)

História do Mês

“…eu acho que ser feliz é uma escolha…”

Neste mês, ficamos a conhecer a história da Mayamba, uma jovem que não desiste de lutar todos os dias.

Voluntariado do Mês

“…a maior vantagem que eles podem tirar mais partido é a integração e através do corpo conseguirem-se expressar…”

No vídeo sobre o voluntariado, a nossa voluntária Raquel Domingues mostra-nos como com entusiasmo e descontração se pode ajudar a alegrar o dia dos nossos utentes.

Atenção às Margens

1. Abriu o primeiro frigorífico comunitário em Portugal

2Fica em Lisboa, no bairro Alvito-Velho, e inspira-se numa iniciativa que já existe em vários países como o Brasil, Índia, Espanha, Alemanha e Reino Unido. O frigorífico comunitário é um projecto que assenta num sistema de solidariedade dentro da própria comunidade (ver aqui e aqui). Trata-se de um frigorífico solidário aberto a todas as pessoas carenciadas do bairro que, de forma anónima, sem necessidade de encaminhamento técnico, declarações ou documentos de identificação, podem ir buscar comida doada por quem tem mais.

Para a responsável pela iniciativa, Ruth Calvão da Fábrica Alcântara-Mar – associação que intervém na dinamização deste bairro – esta pode ser uma forma eficaz de responder às necessidades de carência alimentar identificadas na comunidade e que atingem sobretudo idosos, imigrantes, desempregados de longa duração e famílias desestruturadas. Por um lado, permite contornar a “vergonha” que inibe muitas pessoas de recorrerem a instituições para pedir apoio alimentar. Por outro lado, para além de refeições prontas oferecidas pela ReFood, são disponibilizados bens perecíveis, como fruta, legumes e outros frescos, a que muitas pessoas não acedem por dificuldades económicas. O projecto vai tentar articular, no âmbito da responsabilidade social, com produtores, supermercados e mercearias para garantir o fornecimento destes produtos. Para Ruth Calvão este projeto tem também uma componente educativa, uma vez que se pretende que as pessoas respeitem os outros e não retirem mais do que precisam.

O frigorífico foi doado por uma moradora de 80 anos, nascida e criada no bairro, e além de útil é também uma obra de arte, tendo sido pintado pelo artista plástico Luís Levy Lima.

2. Refugiados: investir no acolhimento é investir no crescimento

3O primeiro grande estudo sobre o impacto da chegada e integração de requerentes de asilo na União Europeia, financiado pela ONG The Tent Foundation (ver relatório completo aqui), conclui que a população refugiada, no espaço de apenas cinco anos, irá gerar quase o dobro do valor que os Estados-membros vão gastar no seu acolhimento e integração.

De acordo com o economista Philippe Legrain, autor do estudo e professor da London School of Economics, os refugiados vão contribuir para a criação de mais postos de trabalho, levar ao aumento da procura de bens e serviços e suprir lacunas existentes há vários anos no mercado de trabalho europeu. Simultaneamente os seus salários irão ajudar a financiar os sistemas de pensões e finanças públicas dos países de acolhimento. Tendo por base estudos anteriores realizados por outros economistas, Legrain considera também pouco provável que a integração destes refugiados provoque aumento do desemprego ou quebra dos salários nos países que os recebem. Alerta contudo para a necessidade de a Europa adotar medidas que facilitem a entrada dos requerentes de asilo no mercado de trabalho – por ex., permitir que trabalhem enquanto aguardam uma resposta das autoridades, assegurar a aprendizagem da língua, o reconhecimento das habilitações, garantir o seu alojamento em zonas com maior oferta de emprego, etc..

A mensagem central deste relatório é a de que o acolhimento de pessoas refugiadas não é apenas uma obrigação humanitária e legal; é um investimento que pode gerar muitos dividendos económicos. Philippe Legrain espera assim que as conclusões deste estudo ajudem a desconstruir o mito de que os refugiados são um fardo económico para os países europeus que os recebem.

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