Mês: Junho 2016

Editorial

Saber o nome

13516715_1098978130176780_3167930628636678505_nEscrevo este texto no dia a seguir à Festa de São João, que nos últimos anos temos tido no Centro. Mais uma vez estiveram quase 150 pessoas, numa animada e informal mistura entre quem é ajudado pelo Centro, muitos voluntários, membros da equipa, e ainda outros amigos que se quiseram fazer próximos. Todos alegremente unidos em conversas amenas nos corredores, pelas sardinhas e febras assadas no jardim, no bailarico ao som da música pimba e tradicional, e pelo enorme balão de São João lançado no final, com os nomes de todos amarrados a ele. Nomes que, como dizia uma voluntária recém-chegada, “já começo a ligar às caras”.

O nome é provavelmente o mais básico elemento de identidade. É a primeira informação a ser dada quando nos apresentamos. É sinal de que há algum tipo de relação, seja ela qual seja, quando pronunciamos o nome de alguém, ou quando alguém nos chama. E quem não fica gratamente contente e se sente valorizado, quando um quase-desconhecido, para nossa surpresa, se recorda do nosso nome?

E foi na participada missa inicial que tivemos o “gesto do nome”, em que cada um pronunciou alto o seu nome, atentamente escutado por todos. É curioso como no Centro quase todos os nomes de quem anda por cá são conhecidos, sejam eles tipicamente portugueses ou estrangeiros de paragens estranhas. E o “abrir a ficha” na receção a quem aparece novo, acaba por ser menos ato administrativo do que gesto de incorporação a esta casa, a partir do nome que se torna conhecido e depois se passa aos demais. Que o Centro continue a ser lugar onde os nomes são conhecidos, para que cada um viva a experiência de se sentir reconhecido, bem-vindo e valorizado.

P. Filipe Martins sj

Breves do Centro

1. Formação sobre “RSI, direitos e deveres”

13330900_955329444588499_7623142132695768672_nNo passado dia 8 de Junho participei em mais uma formação do Centro, desta vez sobre “RSI, direitos e deveres”. Nesta formação tive a oportunidade de tirar algumas dúvidas que tinha sobre o tema em si, bem como aprender outros conhecimentos que não possuía sobre o assunto.

A formação foi bastante dinâmica e muito esclarecedora. Gostava que se fizessem mais formações sobre este assunto, e mesmo de outros temas que poderiam ser uma mais-valia e ajuda para todos nós.

Sérvia Ismael (utente)

2. Plataforma Mais Emprego

p+eNo âmbito da Estratégia Nacional para a Integração da Pessoa Sem Abrigo 2009-2015, foi criada no Porto a Plataforma + Emprego, que pretende gerar sinergias entre o mundo empresarial e os cidadãos em situação de sem-abrigo que apresentem um perfil mínimo de empregabilidade. Entre as diversas organizações que constituem esta plataforma encontra-se a Segurança Social, o IEFP – Instituto de Emprego e Formação Profissional, a Santa Casa da Misericórdia do Porto, a Universidade Católica (pólo do Porto), a CAIS, e ainda o Centro São Cirilo.

Até agora o Centro tem estado representado pelo Ricardo Dias, e um dos seus grandes contributos foi a criação da infografia da plataforma. A partir de Julho essa representação passará a ser feita pela técnica do Gabinete de Emprego (que vos escreve), integrando o grupo da triagem e elaboração de CV’s.

Esta é mais uma iniciativa conjunta em prol daqueles que, na nossa cidade, passam por uma fase de grande necessidade. E que procura fomentar a lógica da “capacitação” que também aqui no Centro aplicamos, de “dar o peixe e ensinar a pescar”. Que possa continuar a dar frutos como até aqui, dando às pessoas em situação de sem abrigo ferramentas e oportunidades para saírem, contando com as suas próprias capacidades, da situação difícil em que se encontram.

Maria José Lino (Técnica de Emprego)

3. Programa de Literacia Familiar “Conto contigo”

Tomei conhecimento pela primeira vez da obra de São Cirilo através de uma amiga búlgara que frequenta as aulas de português. Achei que poderia ser útil para esta instituição de alguma forma, mas com o meu horário, tornava-se difícil conciliar o trabalho com o voluntariado.

Foi então que fui convidada para integrar o Programa de Literacia Familiar “Conto contigo” (desenvolvido em parceria e coordenado pela Fundação Aga Khan), que consiste em ajudar a desenvolver as capacidades cognitivas necessárias para uma boa integração na vida escolar das crianças prestes a dar esse passo (com 5 anos).

Ainda estamos no início deste projecto, mas já sentimos que fizemos a diferença na vida destas crianças, quando tivemos conhecimento do retorno por parte de uma das crianças envolvidas neste programa – ela tentou ensinar exercícios que aprendeu na primeira sessão a adultos. O que prova que ela conseguiu não só aprender mas também ficou estimulada para ensinar. É certamente um bom começo para o nosso projecto!

 Ivone Correia (voluntária)

História do Mês

“…o melhor da vida, foi dar-me bem com os meus irmãos…”

Neste mês, ficamos a conhecer a história do senhor Abílio, um homem que com altos e baixos vai levando a vida com a animação e alegria que lhe é característica.

Voluntariado do Mês

“…é muito importante o sorriso, porque é uma espécie de porta aberta…”

No vídeo sobre o voluntariado, a nossa voluntária Inês Mendes mostra-nos o seu entusiasmo e vontade de aprender ajudando os outros.

Atenção às Margens

1. Carta Portuguesa para a Diversidade

1Desde o dia 31 de Março Portugal passou a fazer parte dos 16 países que possuem uma Carta da Diversidade (ver aqui) e que assumiram o compromisso de respeitar, valorizar e optimizar todo o potencial da diversidade, seguindo os esforços e as recomendações da Comissão Europeia.

A Carta para a Diversidade foi criada com o objectivo de encorajar as entidades empregadoras a implementar e desenvolver políticas e práticas internas de promoção da diversidade. Trata-se de um documento curto, assinado de forma voluntária por entidades de vários sectores (publico e privado, com e sem fins lucrativos). Em Portugal foram 79 as organizações que assumiram publicamente este compromisso, mas qualquer entidade empregadora pode assinar a Carta Portuguesa para a Diversidade.

O documento descreve um conjunto de medidas concretas que podem ser adoptadas para promover a diversidade e a igualdade de tratamento e de oportunidades no trabalho, respeitando e valorizando a(s) diferença(s) relativas ao sexo, identidade de género, orientação sexual, etnia, religião, credo, território de origem, cultura, língua, nacionalidade, naturalidade, ascendência, idade, orientação política, ideológica ou social, estado civil, situação familiar, situação económica, estado de saúde, características físicas, estilo pessoal e formação. Para saber mais, o site oficial pode ser consultado aqui.

2. O impacto das alterações ambientais nas migrações

2A pretexto do Dia Mundial do Ambiente, celebrado a 5 de Junho, a Organização Internacional para as Migrações (OIM), veio alertar para a questão das “migrações climáticas” (ver aqui). Não existe uma definição universal e legalmente aceite deste fenómeno, facto que tem dado origem a inúmeros debates em torno do estatuto das pessoas que se deslocam tentando escapar aos danos provocados pelas alterações ambientais. A verdade é que estas pessoas não podem ser apelidadas de “refugiados climáticos”, uma vez que esse estatuto não é reconhecido pelo direito internacional, nomeadamente pela Convenção Relativa ao Estatuto dos Refugiados de 1951.

Mas para a OIM o fenómeno existe. E há investigações que provam a correlação entre os impactos negativos das alterações climáticas e as migrações (ver aqui). Reconhecendo que são múltiplas as causas dos fluxos migratórios, a OIM considera que os factores climáticos não podem ser ignorados. E é nesse sentido que apela à necessidade de uma definição clara e consensual dos conceitos de “migrações climáticas” e “migrantes climáticos”.

Enquanto tal não acontece, e procurando dar visibilidade ao fenómeno e colocá-lo na agenda política, esta organização define migrantes ambientais ou climáticos como: “pessoas ou grupo de pessoas que devido a alterações repentinas ou progressivas no meio ambiente que afectam adversamente as suas vidas e as suas condições de vida, decidem ou são obrigadas a deixar as suas casas, temporariamente ou permanentemente, deslocando-se para outros locais do seu país ou para o estrangeiro”.

 3. Projecto para facilitar a transição de jovens de instituições para a vida adulta

3Portugal é um dos países europeus com maior número de menores institucionalizados. Não são ainda conhecidos os dados de 2015, mas em 2014 eram 8470 as crianças e jovens em centros de acolhimento e em lares de infância e juventude. Os apartamentos de transição para a vida adulta são poucos e estão longe de dar resposta às necessidades. Em Coimbra, por exemplo, não há nenhum. Chegados aos 21 anos estes jovens têm de deixar as instituições. Uns ficam por sua conta, outros regressam à família, o que significa muitas vezes voltar para uma situação de desestruturação.

Foi a pensar nesta realidade que um grupo de profissionais de diferentes áreas criou no início do ano a Plataforma de Apoio a Jovens Ex-Acolhidos (ver aqui), que funciona em Coimbra, na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação. O objectivo deste projecto é que cada jovem possa ter dois adultos que sirvam de referência e que funcionem como mentores, facilitando o processo de transição da instituição para a vida adulta. Neste momento são acompanhados 26 jovens.

O coordenador da plataforma, João Pedro Gaspar, fala em três eixos de actuação (ver aqui). Um tem que ver com a resolução de situações de emergência – acesso a medicação, apoio na resolução de problemas com a justiça ou na obtenção de documentação, por exemplo. Um segundo diz respeito à prevenção, apostando no contacto com as instituições de acolhimento e com quem nelas trabalha no sentido de sensibilizar os cuidadores para a importância de trabalhar o processo de autonomização dos jovens, nomeadamente através de um programa de competências ajustado a cada um. O terceiro eixo é o da investigação que nesta fase está sobretudo orientada para a construção de uma base de dados que permita aferir o que deve ser melhorado neste domínio, inclusivamente a nível legislativo.

© 2019

Theme by Anders NorenUp ↑