Mês: Julho 2016

Editorial

“Panta rei”

“Panta rei”. “Tudo muda”. Quem não ouviu já alguma vez esta frase do filósofo grego Heráclito, que nasce da consciência de que toda a vida é feita de movim325791e7-9a24-4f15-abdc-6a1814314db6ento e mudança? Eram também os pensadores gregos que exaltavam a estabilidade, enquanto sinal de perfeição. E por isso eram conscientes de que a mudança é a expressão de que as coisas podem sempre melhorar, seguir o seu caminho de crescimento. Quantas vezes a mudança causa instabilidade, algum receio do que possa vir a seguir. Mas tudo o que venha a seguir será bom, mesmo com as suas dificuldades, se vivido com empenho e com fidelidade.

Esta é mais ou menos a fase que vivemos aqui no Centro. Depois de vários meses de casa cheia e estável, estas são semanas de muita mudança, com vários utentes já com emprego e preparados para a autonomização. O que virá a seguir, na vida deles e na vida da casa que já se tinha habituado a eles e os vê partir, não sabemos bem, mas há a confiança de que tudo será bom. Temos também feito a avaliação do ano letivo que termina, em equipa e com várias áreas do voluntariado. Há elementos no projeto São Cirilo que vamos estabilizando e percebendo fundamentais. E há (muitos) outros que vamos testando, avaliando, melhorando. O verão trará também o pleno assumir de toda a direção operativa por parte da Rita Lança, a nova diretora. E teremos também, no recomeçar do ano, o arranque do processo de “planeamento estratégico” para os próximos anos, em que todos (equipa, corpos sociais, voluntários, doadores) serão convidados a participar.

Não recear a mudança, saber viver as “borboletas no estômago” que ela provoca, tem tanto de risco como de sabedoria. Pois recusá-la, agarrar-se ao conhecido e à “zona de conforto”, acaba por ser pobreza e autolimitação. Que o Centro continue a ser casa em mudança, na qual todos se sentem envolvidos e desafiados. E seguimos unidos, na construção de um mundo melhor.

P. Filipe sj

Breves do Centro

1. Literacia Familiar- O Resultado da experiência Piloto

IMG_8297 (1)O Programa Conto Contigo, uma intervenção não formal de literacia familiar, iniciativa da Fundação Aga Khan em parceria com o São Cirilo, trouxe​ a este espaço tardes de sábado coloridas e cheias de animação, conversa​ e afeto​, com histórias, canções, brincadeiras, jogos e muitas aprendizagens.

A partir de uma história, cinco crianças e as suas mães partiram à descoberta  e exploração da linguagem escrita, descobrindo para que serve ler e escrever, brincando com os sons das palavras e pensando na relação entre as letras e os sons.

O objetivo não era ensinar a ler, mas sim facilitar a emergência de competências que facilitassem a aquisição da leitura, visto que a maior parte dos meninos transitará no próximo ano letivo para o 1º ano do 1º Ciclo do Ensino Básico. Sabendo que a ​leitura é a chave para o sucesso de grande parte das aprendizagens, a familiaridade com o mundo dos livros abre muitas portas.

O programa desenvolveu-se em quatro sessões, mas as descobertas​ continuam​ em casa, com as famílias, que  têm um papel fundamental no desenvolvimento e aprendizagens das crianças. O programa estará de volta em setembro, para que mais crianças e famílias partam à descoberta do fantástico mundo das letras…

Daniela Costa | Voluntária Literacia Familiar

2. Lanche de Atividades 3º Trimestre

Eu descobri o Centro São Cirilo em Janeiro, quando decidi de ir para o Porto, para começarLanche das atividades julho a minha nova vida aqui.

O trabalho do Centro também vem do coração. As pessoas que trabalham aqui, trabalham num projeto importante. Ajudam os imigrantes na adaptação e compreensão de um estilo de vida em Portugal, o carinho, o prazer de receber, – tudo isso e muito mais neste espaço, tal como o próprio nome indica, comunitário.

No Centro é realizada uma série de diferentes eventos, uns, direccionados para a aprendizagem, outros para o entretenimento. No dia 14 de julho de 2016, por exemplo, foi organizado no Centro um lanche, como forma de encerramento do ano. Um ambiente acolhedor e uma atmosfera amigável. Tudo era incrivelmente delicioso! Obrigada especial por aquilo! A parte formal com a entrega de diplomas não foi menos emocionante e tocante.

Obrigada por esta oportunidade de ver aos olhos das belas pessoas e agradecer-lhes por tudo o que eles fazem. O meu “obrigada” nunca é suficiente para expressar a minha atitude em relação ao trabalho do Centro. No entanto, eu gostaria de dizer obrigada por aquilo que vocês fazem existir.

                                                              Aleksandra Nikiforova | Aluna de português

3. Atividades de Verão

Tendo já começado a 18 de julho, o Centro oferecerá até 26 de agosto um vasto programa de Atividades de Verão, organizadas segundo um esquema semanal regular e abertas, de forma gratuita, a todos os que queiram participar (não é assim necessária inscrição). É o seguinte o programa:

* Às seguTodos os Cartazes1ndas teremos, a partir das 14:30, contos e poesia – Segundas faladas e contadas.

* Às terças de manhã teremos os Percursos com História no Porto, com saída às 9:30 (estão pensadas 4 visitas diferentes). E à tarde, a partir das 14:30, haverá o Torneio de Jogos de Mesa entre utentes de várias organizações.

* Às quartas às 10h teremos o desporto, e às 14:30 o workshop de culinária.

* Às quintas às 10h teremos a Oficina de Artes e Ofícios, e às 14:30 as Férias Divertidas – Pais e Filhos, actividade destinada a crianças entre os 5 e os 10 anos acompanhadas pelos pais.

* À sexta, finalmente, a partir das 14:30 haverá cinema no Centro.

Mais informações podem ser obtidas, diretamente ou por mail, junto da animadora Paula Correia (paula.correia@saocirilo.pt).

                                                                                                          Paula Correia| Animadora Sociocultural

História do Mês

“Ucrânia só para férias.”

Neste mês, ficamos a conhecer a história do senhor Omelyan Masiyam, que considera que Portugal é muito bonito e oferece ajuda a quem precisa. Eis mais um percurso de vida, nas nossas “histórias do mês”…

 

Voluntariado do Mês

.”O sofrimento a mim custa-me muito. Mais do que a morte, é o próprio sofrimento do doente que me custa…”

A nossa voluntária do Gabinete Médico, Fernanda Colaço, fala-nos da sua prática de medicina, e do acolhimento que também faz parte…

Atenção às Margens

1. Novos estrangeiros em Portugal são sobretudo da Europa Ocidental

O Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) publicou recnovos estrangeirosentemente o Relatório de Imigração, Fronteiras e Asilo de 2015 (ver aqui) onde dá a conhecer a realidade da população estrangeira residente em Portugal. Ficámos assim a saber que, seguindo a tendência dos últimos anos, a população estrangeira continua a diminuir. Esta descida é especialmente visível entre os cidadãos dos países de língua portuguesa – Angola lidera a tendência de saídas (-7,4%), seguida por São Tomé e Príncipe (- 6,1%), Brasil (- 5,6%), Cabo Verde (- 5,5%) e Guiné-Bissau (-4,9%). No entanto, estes países totalizam ainda 46% da população estrangeira que reside em Portugal e continuam a figurar na lista das 10 nacionalidades mais representativas, com o Brasil a ocupar o primeiro lugar.

Em contrapartida a população da Europa Ocidental reforça a sua presença no nosso país. Merece destaque a França que aumenta 29%, mas também a Itália (mais 15%), a Holanda (mais 11,2%), o Reino Unido (mais 4%), a Espanha (mais 3,4%) e a Alemanha (mais 3,2%). O SEF considera que este crescimento de cidadãos da UE a residir em Portugal pode ter como explicação o regime fiscal para residentes não habituais, criado em 2009. Para o professor e investigador do ISCTE e coordenador do Observatório da Emigração, Rui Pena Pires, se este aumento se deve ao regime fiscal, então estamos a falar de uma imigração que interessa menos a Portugal, porque se trata de pessoas mais velhas, quando o que precisamos é sobretudo de uma população mais jovem, em idade ativa e que possa ter filhos.

Outro dado revelado por este relatório aponta para o aumento significativo das pessoas que pedem asilo de forma espontânea. A Ucrânia lidera esta lista, seguindo-se o Mali, a China e o Paquistão. A notícia completa pode ser vista aqui.

 

2. “Porto de Abrigo” – plano de apoio à população sem-abrigo do Porto

A Câmara Municipal do Porto aprovou por unanimidade, no início de Julho, um plano para alargPorto de Abrigoar a capacidade de resposta no apoio à população sem-abrigo que começará a ser implementado já este verão (ver notícia aqui e aqui).

O Plano, designado por “Porto de Abrigo”, assenta em quatro eixos. O primeiro passa pela criação de uma nova equipa de rua exclusivamente dedicada aos sem-abrigo que, para além do habitual apoio social, terá uma valência reforçada na área da saúde. O segundo domínio de acção refere-se ao acolhimento de emergência, e será concretizado através da abertura de um centro de acolhimento temporário nas instalações do recém-desactivado Hospital Joaquim Urbano. Um terceiro pilar diz respeito à criação de restaurantes solidários, que gradualmente substituam o fornecimento de refeições na rua, garantindo assim maior comodidade, segurança e qualidade alimentar a quem recorre a este tipo de apoio. O quarto pilar deste plano passa pela disponibilização de apartamentos para alojamento de longa duração destinado a sem-abrigo que apresentem condições para recomeçar as suas vidas.

De acordo com o vereador da Ação Social, Manuel Pizarro, estima-se que existam no Porto entre 80 a 120 pessoas a dormir na rua, mas se considerarmos que o conceito de sem-abrigo abrange também quem vive em edifícios devolutos, em quartos alugados pela Segurança Social, entre outras circunstâncias de fragilidade, este universo sobe para cerca de 900 pessoas, de acordo com dados da Rede Social. O Programa “Porto de Abrigo” pretende ser um complemento à rede de apoio aos sem-abrigo que já existe na cidade.

 

3. Trabalho doméstico: cuidar dos direitos de quem cuida das nossas famílias e das nossas casas

trabalho doméstico

No dia 17 de Julho entrou em vigor em Portugal a Convenção n.º 189 de 2011 da Organização internacional do Trabalho (OIT) relativa ao Trabalho Digno para as Trabalhadoras e Trabalhadores do Serviço Doméstico (ver aqui).

De acordo com a OIT existem 2,5 milhões de trabalhadoras e trabalhadores domésticos na União Europeia, sendo que 88% são mulheres. Em 2012, a Itália (27,5%), a Espanha (25%), a França (23%), a Alemanha (8,5%) e Portugal (5,1%) eram os países com maior número de trabalhadores domésticos, segundo estimativas da Comissão Europeia.

Apesar de não parar de aumentar, a OIT considera que o setor do trabalho doméstico continua a ser o mais precário, o mais mal pago, o menos protegido, um dos mais arriscados e seguramente um dos socialmente menos valorizados e prestigiados, mantendo um estatuto de “trabalho invisível”. As situações de exploração laboral são comuns, e quando se fala do trabalho doméstico e imigração, o cenário agrava-se. É sobre esta realidade que se centra uma reportagem do Jornal Público recentemente publicada (ver aqui) onde são apresentados relatos de situações de exploração vividas por mulheres imigrantes, na sua maioria a trabalhar como empregadas internas. É a promessa de um contrato de trabalho que nunca se cumpre, as férias que não são pagas, o excesso de carga horária, a sujeição a humilhações várias (a empregada negra que é obrigada a lavar constantemente as mãos, ou a que é impedida de tomar mais do que um banho por semana, ou que é chamada de incompetente e acusada de mentir).

Faz por isso todo o sentido a questão colocada por Guy Ryder, Diretor-Geral da OIT, num artigo de opinião recentemente publicado (ver aqui): “Cuidam das nossas crianças, de pessoas idosas, de quem vive com deficiência, e das nossas casas – mas será que estamos a cuidar devidamente destas/es trabalhadoras/es?”

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