1. FamiliarMente – Projecto para apoiar quem sofre em silêncio

1No dia 16 de maio decorreu em Lisboa a apresentação oficial da FamiliarMente – Federação Portuguesa das Associações das Famílias de Pessoas com Experiência de Doença Mental, constituída por associações de várias regiões do país ligadas à saúde mental.

Joaquina Castelões, presidente da FamiliarMente, sublinhou a importância da criação de uma estrutura nacional vocacionada para representar os familiares de pessoas com doença mental, que considera “doentes ocultos”. Numa entrevista concedida a um jornal nacional (ver aqui) a representante desta estrutura referiu que na doença mental “há a pessoa que tem o problema e a família que tem de o tentar resolver. A família também fica doente, vive e convive com a doença 24 horas por dia”. Muitas famílias sentem que têm pouca informação e também neste domínio a federação pretende intervir. Por outro lado, constata-se a necessidade de criar “mediadores/as” ou “técnicos/as de referência” que façam a ponte entre os familiares, enquanto cuidadores informais, e os serviços de saúde e de apoio social.

Outras prioridades da FamiliarMente passam pela implementação dos cuidados continuados integrados de saúde mental que, apesar de previstos em projeto desde 2011, tardam em ser concretizados; e pela criação de um observatório que faça um levantamento das respostas na área da saúde mental já existentes e ainda das que há necessidade de existir.

2. Orquestra Geração – Instrumentos para a inclusão

2O Projecto Orquestra Geração foi criado em 2007 para combater o abandono e o insucesso escolar e para promover a inclusão social das crianças e jovens de contextos ditos problemáticos. No início eram 15 alunas/os e uma Escola na Amadora. Hoje são já cerca de 900 crianças do 1.º ao 3º ciclo de ensino, e 18 escolas na Área Metropolitana de Lisboa, Coimbra e Gondomar. Este projecto foi inspirado na metodologia venezuelana do “El Sistema”, lançada em 1975 pelo maestro José António Abreu, com objectivo de retirar as crianças da pobreza com o recurso à música clássica. Baseia-se num método de aprendizagem muito simples: começa-se com um instrumento na mão, vendo e imitando o que o/a professor/a faz, tocando músicas populares que todos/as conhecem.

Em Portugal, depois de uma primeira intervenção nas escolas que procurou trabalhar a concentração, a auto-estima e o trabalho de grupo, fazendo também do contexto escolar um espaço apetecível, a próxima fase do projecto passa por investir nas orquestras municipais, que juntam os/as alunos/as de várias escolas da mesma zona. Esta é uma maneira de não largar quem acaba o 9.º ano e de criar um sentido de comunidade.

Já habituados/as às grandes salas, no passado dia 19 de Maio os/as jovens da Orquestra Geração viveram um momento único no Teatro São Luiz em Lisboa: juntaram-se a grandes nomes da música como Mário Laginha, Camané, Rodrigo Leão ou Celina Pereira, para tocarem numa gala de angariação de fundos para financiar novos projectos, novos instrumentos e outras iniciativas. Mais informações sobre a Orquestra Geração podem ser encontradas aqui.

3. Como vivem as/os utentes das Instituições de Solidariedade Social

3No final deste mês de maio foi dado a conhecer o estudo “Utentes de Instituições de Solidariedade Social – Uma abordagem à Pobreza nesta população” (consultar aqui) conduzido pela Universidade Católica em parceria com o Banco Alimentar e a Entreajuda. Trata-se da terceira edição de um projecto que teve início em 2010, e que tem como objectivo proceder a uma caracterização abrangente das/dos utentes das Instituições de Solidariedade Social, focando áreas tão diversas como a situação económica do agregado familiar e formas de lidar com a falta de recursos, a alimentação, as redes relacionais, a saúde, as condições de habitação ou o sentimento de pobreza.

Entre os principais resultados obtidos, o estudo destaca a questão dos baixos rendimentos – cerca de 52% dos agregados familiares auferem um valor mensal igual ou inferior a 400€ (25% das famílias auferem menos de 250€, 28% entre 251€ e 400€, 20% entre 401€ e 500€ e 28% mais de 500€), sendo que os agregados familiares com menores rendimentos correspondem a indivíduos com menos escolaridade e com agregados mais pequenos. A casa (70%) e a alimentação (64%) são as duas maiores despesas, seguidas das despesas com a saúde (39%). Cerca de 53% das pessoas inquiridas afirma que o rendimento da família nunca é suficiente para viver e 33% que às vezes é suficiente e apenas 14% refere que o rendimento familiar é sempre suficiente para viver.

Quanto à fome, o trabalho indica que 20% dos inquiridos admitiram ter tido falta de alimentos ou sentido fome alguns dias por semana nos seis meses anteriores ao estudo. A estes somam-se os 13% que disseram ter tido fome pelo menos um dia por semana. Aliás, o estudo refere que em 87% dos casos a ajuda das Instituições de Solidariedade Social a estes/as utentes traduz-se em cabazes ou refeições. Comparando os dados apurados em 2014/2015 com os de anos anteriores, parece haver uma ligeira melhoria na percepção que os indivíduos têm sobre as suas condições de vida. Em 2012, cerca de 82% das pessoas inquiridas dizia sentir-se pobre e em 2014 o valor é de 79%. Entre os indivíduos que se sentem pobres destacam-se sobretudo aqueles que têm idade inferior aos 65 anos, reduzida escolaridade e baixos rendimentos. O estudo refere também que mais de metade das pessoas inquiridas (55%) considera que a sua vida está pior do que estava há cinco anos atrás. Quando olham o futuro, a maioria (42%) considera que a sua vida estará igual e 30% que estará melhor.

Estes dados reflectem aquela que é também a realidade de muitos/as dos/das utentes que diariamente frequentam o nosso Centro, e ajudam a compreender o papel central que as Instituições de Solidariedade Social continuam a ter no apoio às pessoas mais vulneráveis e em situação de maior fragilidade económica e social.

Seleção e redação por Paula Ferreira (Diretora do Centro)