1. A importância das palavras

1Pais, mães e encarregados de educação têm vindo a queixar-se de conteúdos racistas e discriminatórios nos manuais e materiais escolares do ensino básico. Lenga-lengas que falam do “preto da Guiné”, versos supostamente humorísticos e nonsense mas que apontam “diferenças” de forma depreciativa ou descrevem comportamentos que contrariam os princípios da igualdade e inclusão. É o caso deste poema onde se pode ler: “X é o Xavier, usa roupa de mulher/ C é a Camila com corpinho de gorila/ G é o Gonçalo, já hoje levou um estalo/ I é a Inês, a dar beijos num chinês”.

Um artigo recentemente publicado por um jornal nacional (ver aqui) dá conta desta realidade e mostra como encarregados de educação e mesmo as próprias crianças – sobretudo quando os conteúdos discriminatórios as atingem directamente – vão estando mais atentos à importância da linguagem e ao impacto que ela tem na construção de percepções e comportamentos.

Associações como o SOS Racismo têm também recebido queixas sobre materiais curriculares e pedagógicos de teor racista e colonialista. Um responsável desta associação lembra que “a permanente fixação sobre as particularidades fenotípicas e culturais das comunidades ciganas e negras nos manuais, na produção de saberes sobre elas, e a forma como são representadas são estruturantes do racismo neste país e revelam quão estrutural é a ciganofobia e negrofobia na nossa sociedade”.

Interpelado sobre este assunto, o Ministério da Educação afirma que as listas de leituras recomendadas são actualizadas regularmente com contributo de várias entidades e considera que os materiais didácticos devem ser usados como recurso de promoção da cidadania e igualdade e é nesse sentido que tem vindo a desenvolver um trabalho conjunto com a Secretaria de Estado para a Cidadania e Igualdade.

2. Novas formas de pobreza atingem quem trabalha

2A Cáritas Europeia, num relatório sobre a situação em Portugal, realça as novas formas de pobreza e desmonta o discurso que associa a diminuição do desemprego à melhoria das condições de vida das pessoas (ver relatório aqui)

Estas novas formas de pobreza estão relacionadas com a precariedade laboral, os baixos salários e o desemprego de longa duração – fenómenos que de acordo com o Secretário-Geral da Cáritas, Jorge Nuño Mayer, já existiam no nosso país mas estão a aumentar muito rapidamente. Por isso, fala da “armadilha da pobreza” em que facilmente podem cair as pessoas da classe média desempregadas há mais de cinco anos, quem trabalha mas aufere salários baixos e jovens de zonas rurais onde as perspectivas de futuro são reduzidas ou nulas (ver entrevista aqui).

Jorge Nuño Mayer alerta para o discurso político que refere que mais pessoas voltaram a trabalhar e diz que é preciso ver em que condições o fizeram. Muitas trabalham, mas não ganham o suficiente para ter uma vida digna. Afirma que “uma pessoa que recebe 400 euros vive na pobreza. Talvez consiga pagar a renda da casa, mas não lhe sobra dinheiro para pagar os livros escolares dos filhos, por exemplo, ou o custo para uma visita de estudo organizada pela escola”. Estas situações criadas pela falta de rendimento empurram as famílias para situações de exclusão social.

O relatório da Cáritas Europeia retoma dados que já eram conhecidos sobre a situação portuguesa. Lembra, por exemplo, que a pobreza dos trabalhadores aumentou de 9,7% para 10,5% entre 2010 e 2013; que mais de 42% das pessoas desempregadas não conseguiam, em 2013, assegurar o pagamento imediato de bens necessários; ou que o número de casais desempregados aumentou de 1530 para 12.065, entre 2010 e 2013, fazendo aumentar o risco de pobreza em particular o das crianças.

 3. Mazi Mas – reconhecer e valorizar o trabalho das mulheres migrantes e refugiadas

3Decorreu neste mês de Março em Lisboa a conferência Women of Wisdom, sobre mulheres empreendedoras e liderança, que contou com a participação, entre outras, de Nikandre Kopcke, convidada por causa do seu projecto Mazí Mas — “connosco”, em grego (ver a entrevista aqui). Nikandre inspirou-se na experiência da sua ama, uma emigrante grega que na década de 60 se viu obrigada a fugir para os EUA, mas também na realidade actual de milhares de mulheres migrantes e refugiadas que foi conhecendo em Londres enquanto fazia voluntariado. Para estas mulheres a oportunidades de trabalho são poucas – porque não falam bem a língua, porque têm baixas habilitações escolares, porque não têm uma experiência laboral recente e porque há uma discriminação activa, sobretudo em relação a mulheres com filhas.

Mas Nikandre Kopcke não aceita que se diga a uma mulher que sabe cozinhar, tratar da casa e cuidar de crianças, que não tem habilitações para trabalhar. Por isso criou o projecto Mazi Mas, que nasceu para atribuir um valor ao trabalho não reconhecido, colocando mulheres refugiadas a cozinhar, mas num restaurante. Porque, como afirma, estas mulheres “têm imensas habilitações, mas não aquelas que são reconhecidas e valorizadas”.

E desta constatação surgiu um restaurante pop-up, situado no centro de Londres, onde estas chefs oriundas de diferentes países, usam os seus saberes e cozinham aquilo que fariam em casa, sendo que ao mesmo tempo aprendem como funciona o negócio da restauração para, mais tarde, poderem montar o seu próprio negócio. As novas cozinheiras são acompanhadas por chefs experientes com quem aprendem a construir um menu, a fazer a apresentação dos pratos, a seleccionar os mais adequados e aprendem também tudo sobre segurança alimentar. É igualmente dada formação a quem queira montar o seu próprio negócio. Para conhecer melhor este projecto inspirador vale a pena visitar o website oficial aqui.