Categoria: Janeiro | 2016

Editorial

Abertura de mente e de coração

Why complicate life 1Caio na conta, ao olhar esta edição da Newsletter do Centro, que todos os textos falam de abertura, em modo de internacionalidade. Da sobremesa turca ao almoço quirguizi, da formação em interculturalidade às notícias sobre o cobalto do Congo, das redes sociais à distribuição da riqueza no mundo, todos são temas que nos remetem a algo maior, à abertura de mente e coração que só o contacto com o “outro”, o diferente e o “mundo lá fora” são capazes de proporcionar.

É curioso perceber que esta abertura, que tanto nos preenche, acaba por ser tudo menos automática. Todos temos preconceitos (pré-conceitos, i.e., “conceitos prévios”, em relação a pessoas, raças, classes sociais, …) que nos impedem de “ver” verdadeiramente a realidade como é. Todos projetamos sobre os outros os nossos medos e interpretações dos seus gestos e atitudes, num juízo que tantas vezes se torna indefensável: “tu dizes-me isto, mas a tua intenção é aquilo”. E o outro, diga o que diga, fica “prisioneiro” dessa interpretação. Talvez por isso, pelo conhecimento profundo da natureza humana, Santo Inácio tenha definido nos Exercícios Espirituais, por um lado, a regra básica do “pressupor sempre a boa intenção do próximo” (e mesmo que não a tenha, haverá sempre algo de positivo a tirar do que diz). E proposto, por outro, a releitura sistemática das nossas visões e leituras da realidade (e por isso o “examinar da consciência” começa sempre pelo passo de “pedir luz”).

Esta tem sido também a experiência aqui no Centro. Aparece quando tentamos perceber gestos e atitudes de vida dos nossos utentes estrangeiros que podem ter algo/muito de cultural (às vezes é fácil esquecê-lo). Surge também nas reuniões de equipa, quando aparecem naturais diferenças, e quando ainda assim há o esforço de entender o outro, e de colocar em cima da mesa, com transparência, aquilo que verdadeiramente cada um pensa. Surge com os voluntários, quando com empenho se entregam a algo definido pelo conjunto e para o bem do “todo”, mesmo se eventualmente tivessem opinião ou gosto diverso. Refere o Clayder, no video do “utente do mês”, que a palavra que escolhe para definir o Centro é o “compartir”, a partilha. E não há partilha, nem comunhão verdadeira, sem abertura. Obrigado ao Centro por no-la lembrar, e a ela forçar, constantemente. É muitas vezes doloroso, sim, mas também, afinal, libertador e feliz!

 P. Filipe sj

Breves do Centro

1. Workshop “Sons, Saberes e Sabores”

12400858_862105200577591_5683656850228302221_nNo Workshop “Sons, Saberes e Sabores” do 7 de Janeiro foi dia de culinária. Decidi trazer a sobremesa Etimek Tatlisi muito conhecida no meu país, a Turquia. Todos os participantes estavam muito curiosos principalmente para provar.

Esta sobremesa é feita basicamente por torradas, creme chantilly e com decoração ao gosto de cada um. O sabor foi único porque, desde o início até ao fim, muitas mãos diferentes trabalham para isso. Todos quiseram ajudar a fazer a sobremesa.

O Henry Ford disse: “Reunir é um começo, manter juntos é um progresso; a trabalhar juntos é sucesso”. Sim, isso foi o que fizemos naquele dia. Era coisa simples de fazer, mas a maneira de juntar todos os ingredientes já não era assim tão simples. Tinha segredo.

Com a receita numa mão e uma fatia de Etimek Tatlisi na outra, viajámos por alguns momentos pela Turquia.

Zeynep Öngün

2. Formação sobre Interculturalidade

5236_867148176739960_8949757712470808271_nNo passado dia 20 de Janeiro realizou-se mais uma formação no Centro, desta vez sobre Interculturalidade. Pretendia-se contextualizar o meio circundante, a diversidade cultural e o desenvolvimento de competências pessoais, sobretudo ao nível das soft skills e do autoconhecimento.

A escolha destas temáticas prendeu-se com o facto de haver necessidade de enfrentar o problema da inclusão dos cidadãos na sociedade, em particular dos estrangeiros que por diversos motivos chegam a Portugal. As mudanças acentuadas que estão a ocorrer no mundo global colocam em destaque os movimentos migratórios e a questão da diversidade cultural.

Iniciámos a formação com a apresentação: nome, a idade e assinalamos no mapa-mundo o nosso país de origem. Desta forma quebrámos o gelo e ficámos a conhecer a diversidade do grupo, com participantes de 7 nacionalidades diferentes.

Do global passámos para o local: Portugal. Visionámos vários filmes sobre a diversidade existente em termos de paisagem, tradição, cultura e gastronomia, conduzindo assim os participantes para uma relação consigo própria e com a sua cultura/país.

Passando para o autoconhecimento, aplicámos uma ferramenta muito utilizada em criatividade, o Mindmap. Cada um construiu o seu, aprofundando o seu autoconhecimento e partilhando com os outros participantes a sua cultura, gostos e competências.

Sendo a diversidade cultural um fenómeno novo, a consciência da sua presença é hoje muito forte, e a inclusão das pessoas de diferentes origens num mesmo espaço geográfico deve ser uma realidade e um resultado de uma consciência coletiva. Reconhecer as enormes vantagens de uma sociedade intercultural será uma forma de ajudar a construir o futuro desejado. Hoje foi o que iniciámos com esta formação de interculturalidade, a construção de um novo caminho para o futuro.

Teresa Dieguez

3. Almoço Temático sobre o Quirguistão

12642491_871978786256899_3136831256682842641_nNo dia 27 de Janeiro o Almoço Típico foi dedicado ao Quirguistão. Com a ajuda da minha irmã Mukae, eu e a minha mãe Masha preparámos para todos os utentes um almoço muito tradicional no nosso país – o Palov. A receita levava ovos, cebola, carne de vaca, cenoura, tomate, pimento, alho e arroz. Para acompanhar tínhamos melão, fizemos uma salada de tomate com coentros e cebola, e para beber chá preto e verde. Mas o segredo deste prato é a mistura de todos os sabores incluindo o melão.

Iniciámos o almoço com uma breve explicação do Palov e a maneira de o comer, que é com a mão. No Quirguistão, a tradição é a reunião da família sentada no chão à volta de um grande prato de comida, que é muito colorida e condimentada. Todos comem à mão do mesmo prato.

Para além da comida, o Centro foi decorado com os vestidos e lenços que trouxemos do nosso país. Foi muito divertido, até os profissionais do Centro se vestiram de acordo com as nossas tradições. E para encerrar a festa a minha mãe dançou uma música uzbeque. Acho que todos ficaram maravilhados com as belezas e tradições do meu país.

                                                                                                                                                             Suraie Isakova

Atenção às Margens

1. Quanto custam os nossos pequenos luxos?

1Uma investigação da Amnistia Internacional, em colaboração com a organização não-governamental africana African Resources Watch, permitiu descobrir que o cobalto usado nas baterias de lítio de telemóveis, computadores e outros aparelhos vendidos por todo o mundo por marcas multinacionais como a Apple, a Microsoft ou a Vodafone, vem de minas na República Democrática do Congo, onde milhares de pessoas trabalham em condições desumanas (ver aqui).

Adultos e crianças, algumas com menos de sete anos de idade, trabalham em condições perigosas, recebendo o equivalente a 90 cêntimos por dia, sujeitos a violências e intimidações. Algumas destas pessoas foram entrevistadas e relataram horários de trabalho de 12 horas por dia, sem fatos ou equipamentos de protecção. As crianças carregam cargas pesadas de minério em bruto no meio de um calor intenso, sem luvas nem máscaras. Algumas dizem ter sido espancadas por guardas das empresas mineiras e referem ter sido obrigadas a pagar “multas” quando ocorrem inspecções nas minas ilegais onde trabalham.

Sabe-se que mais de metade do fornecimento mundial de cobalto vem da República Democrática do Congo, sendo 20% deste oriundo de minas artesanais na região setentrional do país. Em 2012, a UNICEF estimava em cerca de 40 mil o número de crianças a trabalhar nas minas do sul do país, muitas delas de exploração de cobalto.

Talvez faça sentido ter isto presente, da próxima vez que formos escolher e comprar os nossos imprescindíveis e cada vez mais sofisticados equipamentos tecnológicos.

2. “Uma Economia para 1%”: a história de um mundo cada vez mais desigual

2Há um ano atrás, também por altura de mais um encontro do Fórum Económico Mundial em Davos, tínhamos dado a conhecer os números avassaladores sobre as desigualdades a nível mundial, revelados pela organização não-governamental Oxfam. Volvido um ano, e após mais um encontro em Davos, ficamos a saber pela mesma ONG que estes números se agravaram: 1% da população mundial possui mais riqueza do que os restantes 99%; e as 62 pessoas mais ricas já detêm tanta riqueza como a metade mais pobre da população mundial (3,5 milhões de pessoas). (ver relatório aqui)

Nos últimos cinco anos, o aumento da riqueza dos que estão no topo teve correspondência com o nível de empobrecimento dos que estão na metade inferior da escala. A riqueza desses 62 multimilionários aumentou 44% desde 2010, enquanto relativamente aos 3,5 mil milhões de mais pobres desceu 41%.

Parece que para já, e como refere Winnie Byanyima, directora da Oxfam, a preocupação manifestada pelos líderes mundiais sobre a escalada das desigualdades ainda não se traduziu em medidas concretas. Vivemos pois num mundo cada vez mais desigual e onde esta tendência se tem vindo a agravar de ano para ano.

3. “As redes sociais são uma armadilha”

3Em entrevista recente ao jornal El País (pode ser encontrada aqui), Zygmunt Bauman, conhecido sociólogo que completou recentemente 90 anos de vida, falou, entre outras coisas, da sua perspetiva sobre as cada vez mais presentes redes sociais. Para Bauman a identidade foi transformada de algo preestabelecido numa tarefa, é a cada um que toca criar a sua própria identidade, dentro de uma comunidade que, muitas vezes, está ausente. E é aí que surge o papel das redes sociais.

A diferença entre comunidade e rede é que a pessoa pertence à comunidade, enquanto que a no caso da rede, é ela que pertence, de certo modo, à pessoa. Pois na rede de cada um é possível adicionar e eliminar amigos, no fundo controlar as pessoas com quem a pessoa se relaciona. Isso faz com que os indivíduos se sintam aparentemente integrado num grupo, já que a solidão acaba por ser a grande ameaça nesses tempos individualistas.

Só que é tão fácil nas redes sociais adicionar e eliminar amigos, que as habilidades sociais deixam de ser necessárias. Elas são desenvolvidas na rua, ou no trabalho, quando se encontram pessoas com quem é preciso ter uma interação razoável. É aí que a pessoa se enfrenta as dificuldades de comunicação e relação, e aprende a envolver-se em diálogo.

Foi curioso, neste sentido, o sinal dado pelo papa Francisco, que logo após ser eleito optou por dar a sua primeira entrevista a Eugenio Scalfari, um jornalista italiano proclamadamente ateu. Foi o sinal de que o diálogo real não é só falar com pessoas que pensam igual a nós. Esse é o perigo das redes sociais, que não ensinam a dialogar pois é muito fácil evitar a controvérsia. Muita gente usa assim as redes não para crescer nas relações e assim ampliar os seus horizontes, mas ao contrário, para se fechar nas suas “zonas de conforto”, sendo que o único som que ouvem é o eco de suas próprias vozes, e a única coisa que vêem são os reflexos dos seus próprios rostos.

Em síntese, as redes são muito úteis e oferecem muitas potencialidades, mas são uma armadilha, sendo por isso necessário estar atentos aos seus perigos.

Seleção e redação de textos por Paula Ferreira (diretora)

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