Categoria: Maio | 2015

Editorial

Espírito de Pentecostes

Celebrámos na semana passada a festa de Pentecostes, o momento da história em que os apóstolos, já despertos pela confiança da Páscoa de que há vida para além da cruz, se lançam decididamente pelos caminhos do Império Romano a anunciar a “boa nova”, a noticia de que é na entrega e na comunhão que a vida ganha sentido. Esta é sempre a ação do Espírito: acolher e animar, desafiar e fazer crescer, ajudar a ultrapassar medos e resistências, para que sejamos cada vez mais tudo o que podemos ser.

É este mesmo Espírito que continua presente no Centro. O Centro começa por ser “família que acolhe”, como diz a Ana Paula André no vídeo da História do mês, “lar onde me sinto segura”. E é também impulso e desafio de crescimento, “pois temos sempre muitas coisas a melhorar”. Acrescenta a professora Maria de Lurdes, no Voluntariado do mês, que “as aulas de música servem para nos fazer viajar”. É bonito pensar na missão de capacitação do Centro desta forma: ajudar a (voltar a) ser “viajantes da vida” aqueles que nos procuram, e receber deles e partilhar esse mesmo dinamismo! Da animada confusão aos almoços, à “babilónia” de nacionalidades que são as aulas de português, das alegres conversas de corredor que juntam utentes, técnicos e voluntários, às “conversas sérias” em gabinete que por vezes também são necessárias, assim é a presença do Espírito nesta casa.

E esta é a mesma pergunta que fica a cada um: “como me ando a deixar desafiar pelo Espírito?” Que o contentamento pelo já alcançado (é importante!) não anule a inquietação pelo “mais além” (para não ficarmos na mediania ou na autocomplacência!). Era Teresa de Lisieux que dizia “poucas pessoas sabem o que Deus faria com elas, se tivessem a coragem de se entregar à vida completamente”. Que este “mais além” continue a ser a missão do Centro, fiel também à entrega dos voluntários que continuam a surgir, e à generosidade de quem com os seus (ainda muito necessários) donativos nos apoia e em nós confia. O projeto São Cirilo é mesmo “missão partilhada”. Obrigado por estar ai, e bom e desafiante “espírito de Pentecostes” para todos!

P. Filipe Martins sj

Breves do Centro

1. A Casa vai a Casa

11245793_750419295079516_7819166320971732384_n No dia 12 de maio “A Casa veio a Casa”! No âmbito de um projeto da Casa da Música, recebemos 2 músicos (Paulo Neto e Bruno Esquível) que vieram ao Centro realizar um workshop em que tocámos, cantámos e fizemos muita música com as mãos, corpo e letras. Apresentámo-nos dizendo os nossos nomes a cantar e, de repente, tínhamos a sala cheia de sopranos e barítonos!

Mas foi quando o microfone começou a passar de mão em mão que a audiência se revelou como verdadeiros músicos em potencial. Cantámos músicas portuguesas, canções de infância e de outras nacionalidades. E mesmo quem não se atrevia a cantar, não resistia a baloiçar o corpo ao som das músicas, do piano e do tambor.

Terminámos com uma música de infância brasileira acompanhada por gestos e a abraçarmo-nos… a música naquela tarde alegrou-nos e percebemos que quem “canta” por gosto não cansa!

Mónica Maruny

2. Visita a Serralves

IMG_2638Como medida de carácter motivacional, organizou-se um pequeno grupo de sete pessoas para visitar o Museu de Serralves.

Na primeira parte da visita, vimos o museu onde estava uma exposição de uma artista polaca onde por intermédio das suas obras retorcidas em ferro, faziam transparecer o caos que há no mundo. Na segunda parte, visitámos os jardins e a casa original do tereno, com um estilo muito interessante (arte deco). Por fim, terminámos a visita com um pic-nic dos jardins enormes e belíssimos de Serralves, inspirados nos jardins de Versalhes.

Em suma, foi um dia passado descontraidamente, em boa companhia, muito bem orientados pelas duas guias do museu e sempre acompanhados por um majestoso dia de sol. Uma experiência a repetir!

João Duarte

3. Um fim-de-semana recheado de boas energias

Dom Turno V aNos dias 16 e 17 de maio decorreu mais uma campanha de recolha de alimentos, destinada ao Centro Comunitário São Cirilo. Nesta ocasião, a campanha decorreu no Pingo Doce da Av. Marechal Gomes da Costa, na zona da Foz.

O objetivo desta campanha passava não só por dar a conhecer o Centro e o trabalho que lá se desenvolve, mas sobretudo por angariar géneros alimentares que permitissem reforçar os cabazes alimentares que o Centro diariamente distribui, bem como assegurar a alimentação dos utentes que vivem na instituição.

Enquanto voluntária do Centro São Cirilo foi a primeira vez que participei numa campanha de recolha de alimentos, e os sentimentos que experienciei foram de uma enorme alegria e orgulho, por dar a cara por esta obra. As pessoas foram bastante recetivas em ouvirem-nos e em dar o seu contributo, o que nos dá ainda mais “certezas” de que estamos no caminho certo para a construção de um mundo melhor!

Sofia Mendes

Atenção às margens

1. FamiliarMente – Projecto para apoiar quem sofre em silêncio

1No dia 16 de maio decorreu em Lisboa a apresentação oficial da FamiliarMente – Federação Portuguesa das Associações das Famílias de Pessoas com Experiência de Doença Mental, constituída por associações de várias regiões do país ligadas à saúde mental.

Joaquina Castelões, presidente da FamiliarMente, sublinhou a importância da criação de uma estrutura nacional vocacionada para representar os familiares de pessoas com doença mental, que considera “doentes ocultos”. Numa entrevista concedida a um jornal nacional (ver aqui) a representante desta estrutura referiu que na doença mental “há a pessoa que tem o problema e a família que tem de o tentar resolver. A família também fica doente, vive e convive com a doença 24 horas por dia”. Muitas famílias sentem que têm pouca informação e também neste domínio a federação pretende intervir. Por outro lado, constata-se a necessidade de criar “mediadores/as” ou “técnicos/as de referência” que façam a ponte entre os familiares, enquanto cuidadores informais, e os serviços de saúde e de apoio social.

Outras prioridades da FamiliarMente passam pela implementação dos cuidados continuados integrados de saúde mental que, apesar de previstos em projeto desde 2011, tardam em ser concretizados; e pela criação de um observatório que faça um levantamento das respostas na área da saúde mental já existentes e ainda das que há necessidade de existir.

2. Orquestra Geração – Instrumentos para a inclusão

2O Projecto Orquestra Geração foi criado em 2007 para combater o abandono e o insucesso escolar e para promover a inclusão social das crianças e jovens de contextos ditos problemáticos. No início eram 15 alunas/os e uma Escola na Amadora. Hoje são já cerca de 900 crianças do 1.º ao 3º ciclo de ensino, e 18 escolas na Área Metropolitana de Lisboa, Coimbra e Gondomar. Este projecto foi inspirado na metodologia venezuelana do “El Sistema”, lançada em 1975 pelo maestro José António Abreu, com objectivo de retirar as crianças da pobreza com o recurso à música clássica. Baseia-se num método de aprendizagem muito simples: começa-se com um instrumento na mão, vendo e imitando o que o/a professor/a faz, tocando músicas populares que todos/as conhecem.

Em Portugal, depois de uma primeira intervenção nas escolas que procurou trabalhar a concentração, a auto-estima e o trabalho de grupo, fazendo também do contexto escolar um espaço apetecível, a próxima fase do projecto passa por investir nas orquestras municipais, que juntam os/as alunos/as de várias escolas da mesma zona. Esta é uma maneira de não largar quem acaba o 9.º ano e de criar um sentido de comunidade.

Já habituados/as às grandes salas, no passado dia 19 de Maio os/as jovens da Orquestra Geração viveram um momento único no Teatro São Luiz em Lisboa: juntaram-se a grandes nomes da música como Mário Laginha, Camané, Rodrigo Leão ou Celina Pereira, para tocarem numa gala de angariação de fundos para financiar novos projectos, novos instrumentos e outras iniciativas. Mais informações sobre a Orquestra Geração podem ser encontradas aqui.

3. Como vivem as/os utentes das Instituições de Solidariedade Social

3No final deste mês de maio foi dado a conhecer o estudo “Utentes de Instituições de Solidariedade Social – Uma abordagem à Pobreza nesta população” (consultar aqui) conduzido pela Universidade Católica em parceria com o Banco Alimentar e a Entreajuda. Trata-se da terceira edição de um projecto que teve início em 2010, e que tem como objectivo proceder a uma caracterização abrangente das/dos utentes das Instituições de Solidariedade Social, focando áreas tão diversas como a situação económica do agregado familiar e formas de lidar com a falta de recursos, a alimentação, as redes relacionais, a saúde, as condições de habitação ou o sentimento de pobreza.

Entre os principais resultados obtidos, o estudo destaca a questão dos baixos rendimentos – cerca de 52% dos agregados familiares auferem um valor mensal igual ou inferior a 400€ (25% das famílias auferem menos de 250€, 28% entre 251€ e 400€, 20% entre 401€ e 500€ e 28% mais de 500€), sendo que os agregados familiares com menores rendimentos correspondem a indivíduos com menos escolaridade e com agregados mais pequenos. A casa (70%) e a alimentação (64%) são as duas maiores despesas, seguidas das despesas com a saúde (39%). Cerca de 53% das pessoas inquiridas afirma que o rendimento da família nunca é suficiente para viver e 33% que às vezes é suficiente e apenas 14% refere que o rendimento familiar é sempre suficiente para viver.

Quanto à fome, o trabalho indica que 20% dos inquiridos admitiram ter tido falta de alimentos ou sentido fome alguns dias por semana nos seis meses anteriores ao estudo. A estes somam-se os 13% que disseram ter tido fome pelo menos um dia por semana. Aliás, o estudo refere que em 87% dos casos a ajuda das Instituições de Solidariedade Social a estes/as utentes traduz-se em cabazes ou refeições. Comparando os dados apurados em 2014/2015 com os de anos anteriores, parece haver uma ligeira melhoria na percepção que os indivíduos têm sobre as suas condições de vida. Em 2012, cerca de 82% das pessoas inquiridas dizia sentir-se pobre e em 2014 o valor é de 79%. Entre os indivíduos que se sentem pobres destacam-se sobretudo aqueles que têm idade inferior aos 65 anos, reduzida escolaridade e baixos rendimentos. O estudo refere também que mais de metade das pessoas inquiridas (55%) considera que a sua vida está pior do que estava há cinco anos atrás. Quando olham o futuro, a maioria (42%) considera que a sua vida estará igual e 30% que estará melhor.

Estes dados reflectem aquela que é também a realidade de muitos/as dos/das utentes que diariamente frequentam o nosso Centro, e ajudam a compreender o papel central que as Instituições de Solidariedade Social continuam a ter no apoio às pessoas mais vulneráveis e em situação de maior fragilidade económica e social.

Seleção e redação por Paula Ferreira (Diretora do Centro)

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