Categoria: Março | 2015

Editorial

O ovo da Páscoa

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Desde há séculos que a tradição ortodoxa manda que na Páscoa as pessoas se ofereçam ovos de galinha umas às outras. O mesmo se faz em muitas zonas aqui do Norte. O ovo parece ser, para quem porventura não soubesse, um objeto estéril, aparentemente sem vida. Mas todos sabemos que não é assim, e que escondido pela casca dura há um pintainho que lentamente se forma, e que mais tarde se transformará em ave adulta, ela própria capaz de gerar outros ovos. É essa a intenção da oferta, desejar uns aos outros que a vida seja fecunda, mesmo nas fases em que ela parece estéril.

Foi também este o sentido que quisemos dar à nossa Festa da Páscoa este ano, reforçar em todos a certeza de que só é estéril a vida que o decide ser. A Páscoa de Jesus, que mais um ano celebramos, é a memória sempre renovada de que não há entrega que não valha a pena, e que “quem morre para dar vida”, sairá sempre a ganhar (sem o procurar intencionalmente!). Esta é a experiência que fazemos diariamente aqui no Centro, através da entrega da equipa e dos voluntários a quem nos procura. E também dos utentes, quando se deixam “arrastar” por este movimento, e descobrem, com surpresa, que podem também eles ser “arrastadores” de outros. O espetacular vídeo da Festa (ver aqui) mostra isso mesmo, a comunhão e a alegria que se geram neste movimento. E que possa cada um, nesta Páscoa de 2015, tornar-se “dador de vida” à sua volta. Feliz Páscoa de Jesus para todos!

 P. Filipe sj

Breves do Centro

1. Almoço Temático Português

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No dia 18 de Março decorreu um almoço temático que proporcionou momentos de grande alegria e partilha entre utentes e equipa técnica: o Centro transformou-se numa típica tasca portuguesa, onde nada faltou (mas mesmo nada!!!). Começando num maravilhoso caldo verde, passando pelos imprescindíveis bolinhos de bacalhau com arroz de feijão e acabando na pastelaria portuguesa, esta foi a oportunidade para muitos dos nossos utentes se aproximarem da cultura e gastronomia lusitana.

Exemplarmente atendidos pelo Sr. Manel e pela D. Maria (que encarnaram o espírito da tasca exemplarmente), os utentes tiveram a oportunidade de vivenciar um momento diferente que lhes permitiu presenciar uma actuação de fado, algo que muitos utentes ainda não tinham tido a oportunidade de experienciar.

Foi com muito gosto que contamos com a presença de “Uma Espécie de Fadistas”, que nos proporcionaram um momento musical de excelente qualidade, tendo deixado os presentes completamente imbuídos pelo momento e desejosos de muito mais.

Pedro Ferreira da Silva

2. Visita de técnicos sociais franceses ao Centro

4De 9 a 21 de Março a Inducar (organização para a promoção da educação não formal e da integração social) acolheu em Portugal um grupo de 12 técnicos sociais franceses vindos do Cémea Poitou-Charentes (Centres d’entrainement aux méthodes d’education active), num intercâmbio destinado a dar a conhecer organizações de educação não formal e intervenção social no Porto, tendo visitado o Centro São Cirilo no dia 16 de Março.

“Somos trabalhadores sociais em Poitou-Charentes, no oeste da França (Poitiers, La Rochelle). Viemos a Portugal para conhecermos outras práticas no trabalho social. Ficámos muito contentes por visitar o Centro, pois encontrámos uma organização muito envolvida socialmente em relação aos imigrantes e a outras pessoas também com necessidades.

As nossas estruturas em França são laicas e no início ficámos um pouco apreensivos com a proposta de conhecer o Centro. No entanto, identificámo-nos plenamente com os valores humanistas que defendemos todos os dias. Sentimos que há uma grande abertura e um profundo respeito por todas as culturas e religiões no Centro. A apresentação e partilha por profissionais e voluntários foram muito interessantes.

Saímos a reflectir com humildade sobre as nossas práticas e o significado que lhes damos. Muitos de nós pensámos que poderíamos trabalhar em São Cirilo e teríamos um grande prazer em contribuir para a sua nobre missão. Agradecemos a todos os que nos receberam.”

Concha Tello

3. Lanche das Atividades

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No dia 26 de Março realizou-se no Centro São Cirilo mais um lanche das actividades. Neste encontro houve a entrega de novos diplomas aos alunos mais presentes neste semestre. Esta entrega de diplomas serve de motivação e ânimo para levantar a moral dos utentes, e é muito importante pois motiva os alunos a quererem ser melhores e a não ficarem parados na vida. Estar num ambiente mais informal com os próprios professores ajuda também a criar laços mais fortes, o que por vezes numa sala de aula não é possível.

O lanche é motivo para agradecer aos voluntários e técnicos, que não só lutam para engrandecer o nome desta casa, mas transmitem as suas aptidões a pessoas que precisam de crescer.

Marco Almeida

Atenção às margens

1. Dia Internacional da Mulher: o que mudou e o muito que ainda falta mudar

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A propósito do Dia Internacional da Mulher, assinalado a 8 de Março, foram dados a conhecer alguns números que mostram que a desigualdade de género persiste em todo o mundo. Em Portugal, alguns indicadores divulgados pela Pordata (ver FB aqui), mostram avanços, por exemplo ao nível do acesso das mulheres à educação, em particular ao ensino superior, mas revelam retrocessos e a persistência de desigualdade acentuadas em termos das remunerações, da participação no mercado de trabalho, do acesso a cargos políticos ou das condições de saúde.

Os dados revelados pela Pordata mostram que a diferença salarial entre homens e mulheres mantém-se, e na maioria dos casos é hoje maior do que era há 30 anos. É sobretudo ao nível dos quadros superiores que este hiato se faz notar mais, sendo que as mulheres ganham em média quase menos 30% que os homens. Na esfera familiar mais de 90% dos adultos a viver sozinhos com crianças são mulheres. Apesar da esperança de vida ser superior para o sexo feminino, as mulheres têm menos tempo de vida saudável.

Em sintonia com a realidade portuguesa estão também os dados divulgados pela OIT – Organização Internacional para o Trabalho (ver aqui) num documento que lembra que as mulheres continuam a viver situações de discriminação e desigualdade no trabalho nos diferentes países. Apesar dos progressos, em termos globais, o salário das mulheres corresponde a 77% do salário pago aos homens, um fosso que tende a alargar-se no caso dos salários mais elevados, sendo as mulheres com filhos as mais penalizadas em termos salariais. A OIT considera que sem uma acção orientada que contrarie esta realidade, a equidade salarial só será atingida em 2086, ou seja, dentro de 71 anos.

2. O Impacto da austeridade nos Direitos Fundamentais

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A Comissão de Liberdades Cívicas, Justiça e Assuntos Internos do Parlamento Europeu encomendou um estudo sobre o impacto da crise nos direitos fundamentais em vários países da União Europeia. O relatório sobre a situação em Portugal agora dado a conhecer (consultar aqui) revela que as políticas de austeridade decorrentes do programa de resgate negociado com a Troika afectaram um grande número de direitos fundamentais consagrados na Constituição Portuguesa, na Convenção Europeia dos Direitos Humanos e na Carta Social Europeia.

De acordo com o relatório, o direito ao trabalho foi o mais afectado pela crise económica (os números do desemprego dispararam de 8,5% em 2008 para 16,4% em 2013) e pelas medidas de austeridade como os cortes salariais, as reduções no subsídio de desemprego e o aumento de horas de trabalho sem pagamento adicional. O documento sublinha também o impacto da crise nas crianças: a taxa de pobreza na infância é muito superior à da média da população; o investimento público na área da educação tem diminuído e isto tem-se traduzido no aumento do abandono escolar, na degradação das condições de ensino (em particular para as crianças com necessidades especiais), e num retrocesso das condições de trabalhos dos/das docentes. A austeridade afectou também o direito à saúde: o encerramento de hospitais e de centros de saúde, o aumento das taxas moderadoras e a redução de transportes gratuitos para pacientes não urgentes vieram dificultar o acesso à saúde, em particular das populações mais pobres e geograficamente mais isoladas.

O relatório aponta um conjunto de recomendações e lembra que a implementação de medidas de austeridade deve ter em consideração o respeito pelos direitos fundamentais.

3. “Amor líquido” de Zygmunt Bauman

3Vivemos cada vez mais rodeados de aparelhos que nos permitem comunicar à distância de um clique. O contato através das redes sociais tomou o lugar de muitos dos nossos antigos contactos pessoais, onde a marca principal é a ausência de compromisso. O “ser líquido” é das características mais presentes nas relações humanas atuais, como refere Zygmunt Bauman na sua obra “Amor Líquido”, sobre a fragilidade dos laços humanos. As relações misturam-se e condensam-se em laços momentâneos, frágeis e volúveis, sejam reais ou virtuais.

O sociólogo polaco Zygmunt Bauman é um dos intelectuais mais respeitados da atualidade. Aos 87 anos é uma referência na análise da transformação da Sociedade. No seu último livro, “Amor liquido”, o autor analisa as relações amorosas e algumas particularidades da “modernidade líquida”. Vivemos tempos líquidos, nada é feito para durar, tão pouco sólidos e duradoiros. Já não existem responsabilidades no amor, e mesmo esta palavra é usada não se conhecendo muitas vezes o seu real significado.

Bauman fala também sobre o amor-próprio, afirma que as pessoas precisam de sentir que são amadas, ouvidas e amparadas. Relacionar-se é caminhar na neblina sem a certeza de nada – uma descrição poética da situação. Este é um livro que vale a pena ler, e que nos ajuda a pensar no mundo em que hoje vivemos (ver mais aqui).

Selecção e redacção por Paula Ferreira (Directora do Centro)

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