Categoria: Novembro | 2015

Editorial

Tempo de Advento

12342447_844229742365137_2492638078009304685_nEntrámos já em tempo de Advento, de preparação para o Natal. Poucas pessoas não gostarão destes dias (normalmente só aquelas que os associam a alguma perda grande). Fala-se em comunhão, em partilha, em alegria, e todos nos sentimos levados a isso, “puxados” pelo ambiente e pelos outros, mesmo que a vida mantenha as suas dificuldades habituais. Neste tempo (re)descobrimos que, mesmo que não as possamos mudar, podemos de alguma maneira escolher a forma de as olhar e viver. Feliz não é aquele que não tem dificuldades, é quem as sabe (escolhe?!) viver da forma certa, com empenho e esperança (por esta ordem!).

Capacitar para este “olhar empenhado e aberto ao futuro” é algo que tentamos fazer diariamente no Centro. Não podemos arranjar soluções para todos os problemas, mas tentamos dar ferramentas e propor este olhar (que é também ele instrumento!). Ou melhor, tentamos diariamente partilhá-lo, já que muitos dos que em teoria “são ajudados”, vem-nos também “ajudar” e confirmar isso mesmo. Basta escutar a Mukhae, no vídeo da história de vida deste mês, que de forma discreta mas persistente vai reconstruindo a sua vida e da sua família. Fala-nos disso a alfabetização, no vídeo do voluntariado do mês, já que poucas ferramentas são tão uteis e tão “desbravadoras” de novos horizontes como é o aprender a ler e a escrever. E não há atividade da casa, ou campanha feita fora, que não queira apontar a isso mesmo, numa lógica de caminho feito em conjunto.

É engraçado como, bem vistas as coisas, a proposta de vida que o Natal e a fé nos trazem é realmente simples. A escolha, ajudada pela graça (de Deus, da Bondade, ou como lhe queiramos chamar!), deste “olhar empenhado e aberto ao futuro”. A própria vida de Jesus, cujo nascimento celebraremos dentro em pouco, o revela e ensina. E por isso há que aproveitar estas semanas para preparar bem o Natal. Não só na sua vivência exterior, mas sobretudo no que nos desafia por dentro. Bom tempo de Advento para todos!

 P. Filipe Martins sj

 

Breves do Centro

1. MOP – Momentos de Opinião Partilhada

No dia 2 de Novembro de 2015 pelas 11.00 teve início a primeira reunião de um conjunto de reuniões mensais de carácter informal apelidada de MOP – Momentos de Opinião Partilhada. O objectivo desta iniciativa é a preparação prévia das reuniões mensais que incluem a participação dos técnicos do Centro e dos utentes internos e apoiados em refeição. A pré-reunião, encabeçada pela Dra. Rita Santos e pela Dra. Paula Correia, e com a participação voluntária dos utentes, é destinada a recolher informações e dúvidas pertinentes com a intenção de apresentá-las na reunião geral.

O MOP começou com uma dinâmica (a dança das cadeiras) para quebrar uma eventual tensão inicial entre os participantes.

Pessoalmente creio que este tipo de sessões informais é de grande utilidade servindo como ferramenta para o crescimento do Centro São Cirilo, envolvendo mais e mais os utentes nas questões diárias. Acredito que a curto e longo prazo as sessões serão bastante positivas (como foi esta primeira…) porque se dá liberdade aos utentes para opinar, para reforçar os laços comunitários e para os encorajar a construir um legado para as futuras pessoas que virão pedir ajuda a esta obra.

Keep up the good work!!!

 João Duarte

 2. Workshop de “Risoterapia”

12191735_832122690242509_7140602035199714948_nO sorriso é a distância mais curta entre duas pessoas, e é tantas vezes um abraço à distância que dá o conforto de te sentires bem acolhida/o no sorriso do outro. O sorriso possibilita-te magicamente parar o tempo dos problemas e transformar o tempo presente com o presente do sorriso.

É verdade, rir não resolve os problemas, mas ajuda a encontrar caminhos para a sua resolução.

Estar no Centro Comunitário S Cirilo foi, para mim e as alunas que me acompanharam, um momento de aprendizagem e convívio. Gostei de ver e sentir um ambiente acolhedor e educativo em que quem entra, sai sempre melhor se assim o entender e mais capacitado para olhar sorridentemente a vida.

Conheci pessoas fantásticas que, mesmo com os seus problemas, conseguiram sorrir e rir a gargalhadas despregadas. Esqueceram, por momentos, os seus problemas para se mimarem com o afeto de um sorriso estampado no seu rosto.

Mesmo que sintas que estás a trilhar um caminho sozinho, sorri para a vida e a vida acabará por sorrir para ti.

Bons sorrisos.

Fernando Batista

 3. Campanha do Pingo Doce

12189144_833603890094389_1472997809270819404_nNo fim-de-semana de 7 e 8 de Novembro os voluntários uniram forças para dar a conhecer os principais objetivos do Centro, as suas atividades e princípios de atuação numa das zonas mais movimentadas do Porto, mais concretamente no Pingo Doce da Boavista. Para além disso, a campanha teve também como objetivo envolver os clientes do PD numa das angariações mais características do Centro, através da doação de uma série de alimentos que se sabe serem absolutamente fundamentais no dia-a-dia de qualquer família.

Enquanto voluntária posso partilhar que me dá imenso prazer contactar com as pessoas, mostrar-lhes o que tanto de bom está a ser feito e a ser conquistado e que tantos desconhecem.

Para além do facto de termos conseguido um ótimo resultado a nível de recolha dos alimentos solicitados, quero acrescentar que, para mim, mesmo que parte das pessoas abordadas prefira não ouvir o que os voluntários têm para dizer, ou fuja com “medo” dos sacos de donativos, o mais gratificamente é saber que consegui chegar a algumas pessoas, que haja sempre quem vá ouvir e passar ao próximo.

Maria Bernardes André

Atenção às Margens

1. Crianças indocumentadas: cidadãos de “segunda”?

1Numa notícia recentemente publicada (ver aqui e aqui) dava-se conta da existência em Portugal de centenas de crianças indocumentadas. São menores filhos de imigrantes, na sua maioria nascidos em Portugal, que não possuem qualquer documento de identificação português nem autorização de residência que garanta o seu estatuto de cidadãos regulares.

Muitas vezes os pais não tratam dos documentos dos filhos por desconhecimento da lei, ou por não conseguirem arranjar trabalho e legalizar a sua própria situação, ou ainda por falta de dinheiro para pagar os custos da regularização. Quando estas crianças atingem maioridade tudo se torna ainda mais complicado: a entrada no mercado de trabalho, as dificuldades em ter um contrato, em viajar, em continuar a estudar. Estes jovens são atirados para um limbo que acaba inevitavelmente por conduzir a situações de exclusão.

Reconhecendo a importância de actuar sobre esta realidade, o Alto Comissariado para as Migrações, em conjunto com o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, a Embaixada de Cabo Verde e o apoio da Direcção-Geral da Educação, lançaram uma campanha nacional para regularizar a situação de crianças indocumentadas de origem cabo-verdiana. Admite-se que esta iniciativa possa vir a ser alargada a outras nacionalidades.

2. Em Portugal as mulheres passam mais do dobro do tempo em tarefas domésticas do que os homens.

2O Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa apresentou este mês de Novembro os resultados de um inquérito feito em Portugal sobre o tema “família, trabalho e papéis de género” (ver aqui). Os dados revelam que os homens portugueses estão a participar mais na vida familiar, mas a família constitui ainda um palco de desigualdades de género persistentes. Quanto à divisão de tarefas nos lares portugueses, os números mostram, por exemplo, que eles gastam 8 horas por semana em “tarefas domésticas” como passar a ferro ou fazer refeições, elas 21 horas; nos chamados “cuidados a familiares” (que inclui os cuidados aos filhos), os homens despendem 9 horas por semana e as mulheres 17.

Se o tempo gasto pelos homens em Portugal nas tarefas domésticas se vai aproximando do verificado nos países nórdicos – onde a disparidade entre os dois sexos é reduzida –, o tempo despendido pelas mulheres é muito superior. Para Karin Wall, uma das coordenadoras do estudo, este facto explica-se porque no nosso país “há uma cultura de bem-estar doméstico muito diferente”, que resulta de uma “socialização, de décadas, em que se insistiu no brio do trabalho doméstico, na necessidade do vinco nas calças e de ter a comida sempre pronta”. Este modelo de socialização consistente até aos anos 70, passou de geração em geração e ainda subsiste.

Mas são apontados sinais de mudança: entre os casais mais jovens a cozinha é a dimensão da vida doméstica onde os homens marcam presença de forma crescente, nomeadamente na confecção das refeições. Há também uma maior divisão no que toca aos cuidados aos doentes. Existe, contudo, tarefas que permanecem pouco dadas à partilha: as reparações constituem uma atribuição masculina, já que em 82% dos casais são os homens que realizam esta tarefa sempre ou habitualmente; e o tratamento da roupa é uma tarefa quase exclusivamente feminina (em 92% dos casais cabe à mulher esta tarefa).

Este é contudo um domínio onde as mudanças ocorrem lentamente, e se já se fez caminho, ainda há muito para fazer.

3. Revista “Refugiados”: para desconstruir medos e mitos

3A Plataforma de Apoio aos Refugiados e o Alto Comissariado para as Migrações lançaram uma publicação denominada “Refugiados” (ver aqui) que tem como objectivo apresentar factos e argumentos para desfazer medos e mitos associados a esta população. A revista foi distribuída junto com alguns jornais de tiragem nacional como o Expresso, a Visão, o Correio da Manhã e o Diário Económico.

Nesta publicação, para além de vários artigos de opinião, constam também textos informativos que procuram, de forma simples e clara, dar a conhecer os factos que estão na origem desta vaga de refugiados que tem chegado à Europa, contextualizar o fenómeno e também desconstruir, através de dados concretos, mitos como por exemplo a ideia de que a “Europa cristã está a ser invadida pelo Islão” ou que “Os refugiados não são pobres porque até têm smartphones” ou ainda a questão tantas vezes escutada em diversos media “Porquê ajudar os refugiados quando temos tanta pobreza em Portugal?”. Para ler, reflectir e compreender.

Seleção e redação por Paula Ferreira (Diretora do Centro)

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